Ricardo Setti, Veja online
Um belíssimo leque do século XVII que pertenceu à musa de Marília de Dirceu, um dos poemas mais marcantes da história da literatura brasileira, está em algum lugar de São Paulo, dando sopa para um museu histórico brasileiro que queira enriquecer seu acervo.
Se há na praça um leque com história, é este. Sua antiga dona, Maria Dorotéa Joaquina de Seixas, a Marília do poema, era noiva de Tomás Antonio Gonzaga, o Dirceu, poeta e inconfidente que, por aliar-se à conspiração de Tiradentes contra o domínio colonial português, em 1792, amargou o desterro em Moçambique até sua morte, em 1810. O livro Marília de Dirceu, de proporções não distantes das de Os Lusíadas, seria publicado no ano do desterro em Lisboa.
DESINTERESSE DO MINISTÉRIO DA CULTURA – O leque foi oferecido em leilão recente realizado na Casa da Fazenda do Morumbi, espaço cultural instalado no local em São Paulo onde, no começo do século XIX, o padre Diogo Antonio Feijó ergueu uma construção antes de se tornar ministro da Justiça, senador e regente do Império.
A peça figurava entre as dezenas de quadros, móveis, porcelanas, candelabros e todo tipo de objetos de arte leiloados pela empresa Dutra Leilões, uma das maiores do país.
Preço mínimo: 6.500 reais. Valor de um jantar para três casais em certos restaurantes de luxo de São Paulo ou do Rio.
Ninguém se interessou – muito menos qualquer funcionário do Ministério da Cultura. A empresa não informa quem é o proprietário, embora haja a possibilidade de a peça voltar a leilão.
Em leilão da mesma empresa a que assisti, anos atrás, particulares arremataram toda uma vasta coleção de itens de uso pessoal do imperador D. Pedro II, inclusive um item raríssimo e absolutamente único: a túnica branca de batismo da princesa Isabel, em 1846.
Ninguém de alguma instituição cultural oficial apareceu sequer para ver o material.
ATÉ O BONÉ DE MOTORNEIRO DE JÂNIO – Da mesma forma, em 1992, poucos meses após a morte de Jânio Quadros, ocorrida em fevereiro, fui como jornalista conferir o leilão de objetos pessoais do ex-presidente, realizado nas dependências da mansão em que viveu os últimos anos, no bairro do Morumbi, em São Paulo – cuja sacada o matreiro ex-presidente transformou em ponto de peregrinação de jornalista em busca de atos e declarações.
Ninguém de qualquer museu ou instituição cultural oficial deu as caras. Tudo acabaria indo parar em mãos de particulares, não necessariamente adeptos do ex-presidente. Móveis, quadros, o retrato do presidente americano Abraham Lincoln com autógrafo, relógios, até seu famoso boné de motorneiro (condutor) de bonde com que se apresentou na vitoriosa campanha para prefeito de São Paulo em 1952, ostentando um número e a sigla da extinta Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC), foram embora.
Esse tipo de coisa vem ocorrendo sistematicamente, há muitos anos, em leilão após leilão em São Paulo, no Rio de Janeiro e em outras cidades.
Goste-se ou não de Jânio, é claro que a coleção de seus objetos pessoais que a família, por alguma razão, não quis manter, deveria estar em algum acervo público, como ocorre nos países civilizados com seus antigos governantes.
Aqui, não. Fragmentando a memória nacional, aos poucos a estamos privatizando.
