Gustavo Chacra, Estadão.com
Não estão claras ainda as circunstâncias do levante militar no Equador e tampouco se houve uma tentativa de golpe ou apenas uma rebelião. Dificilmente saberemos se o objetivo era mesmo derrubar o presidente Rafael Correa neste país acostumado a fracassos presidenciais – o Equador chegou a ter oito presidentes em uma década.
O episódio lembra, em menor escala, o golpe para derrubar Hugo Chávez em 2002. Depois daquela iniciativa, o líder venezuelano se radicalizou ainda mais nas restrições a liberdades democráticas e no seu objetivo de se perpetuar no poder. Três foram os motivos.
Primeiro, Chávez sempre sonhou em ser o líder de uma “revolução” populista de esquerda na Venezuela. Mesmo sem o golpe, esta sua meta ainda existiria. Em segundo lugar, o presidente venezuelano se tornou paranóico em relação aos EUA. Na época, a administração de George W. Bush reconheceu o governo golpista. Por último, a oposição perdeu força por anos depois do fracasso, temendo ser relacionada aos autores do golpe.
Correa também integra esta lista de governantes de esquerda que gostam de mudar a Constituição e desrespeitar a democracia – o que, de forma alguma, justificaria um golpe. Certamente, como o venezuelano, o equatoriano tem tentações de não sair da presidência, apesar de um discurso mais ameno. Mas, comparando com o episódio de 2002 em Caracas, há uma diferença em Quito 2010. Os EUA não se manifestaram contra Correa. O argumento paranóico de Chávez terá menos valor no caso equatoriano. Quem sabe, desta forma, o presidente do Equador evite a radicalização de Chávez há oito anos.