segunda-feira, março 07, 2011

Comemorando o quê?

Adelson Elias Vasconcellos

Saiu a divulgação do índice de crescimento do PIB brasileiro em 2010. Foi de 7,5%, motivo suficiente para o governo comemorar e deitar louros. Há razões para tanto?

Melhor que o governo agisse com certa cautela. Qual a base em que o crescimento foi calculado? A do ano anterior, de 2009, quando o crescimento foi NEGATIVO, em 0,60%. Assim, se a base é fraca, os 7,5% de crescimento bem que poderiam, considerando a média do governo Lula até então, ter sido praticamente metade disto, se 2009 tivesse ao menos empatado com esta média, em torno de 3,96%.

Mas também há outra razão para o governo não sair soltando rojões: o preço para tal crescimento além de partir de uma base negativa, foi conquistada mercê a uma irresponsabilidade de gastos que colocaram em risco a estabilidade do país. Tanto isto é verdade que, agora em 2011, precisaram aplicar um corte de 50 bilhões no orçamento, para que o equilíbrio fiscal não se comprometesse ainda mais. Sustento o que venho dizendo desde o anúncio do corte: ele é insuficiente para repor ordem nas contas públicas. Há enorme necessidade de frear o crescimento, já que nos níveis de 2010, ele não se sustenta e acaba provocando uma disparada da inflação. Assim, na eterna gangorra de crescer muito num ano, e reduzir este crescimento nos anos seguintes à metade, vê-se que o caminho para a sustentabilidade de crescimentos econômicos constantes ainda é um sonho distante.

O ministro Mantega rapidamente se alvoroçou: afirmou que o país é a sétima economia do mundo. Utilizou-se da paridade do poder de compra medido pelo Banco Mundial. Como o organismo ainda está tabulando os dados de 2010, de onde o ministro sacou os dados para corroborar sua afirmação, ele não explicou. Para que o país chegasse a tal posição afirmada pelo ministro, precisaria ter ultrapassado França e Reino Unido, o que, convenhamos, não passa de um blefe ministerial.

Não será com manipulação de números que o país subirá no ranking das potências econômicas. Existe uma série longa de quesitos nos quais o Brasil não consegue avançar. Além disto, não será um crescimento elevado, partindo, repito, de uma base negativa, que o país se elevará na categoria de potência econômica. Para que a fantasia de Mantega se cumprisse, o Brasil precisaria repetir-se nos mesmos índices durante um bom número de anos, e sabemos que tal não se sustenta.

Já em 2011, estima-se que apenas com as medidas adotadas pelo Ministério da Fazenda e Banco Central, dificilmente chegaremos a um crescimento superior a 4,5%, e isto se tudo correr satisfatoriamente bem.

Menos ufanismo e mais realismo seria uma cautela mais do que necessária. A caminhada que temos a cumprir é bastante longa e cheia de percalços. Tanto que o próprio governo do senhor Mantega precisou adotar medidas restritivas que, na passagem de 2009 para 2010 impulsionaram a atividade econômica para chegar no nível de crescimento que se viu. Como os incentivos hoje, produzem muito mais malefícios do que benefícios, foi necessária uma freada da atividade econômica para não se colocar em risco a estabilidade. Fica claro, deste modo, que os tais 7,5% de 2010, o “pibão” como Dilma o chamou, tinha muito mais de artificialismo do que de realismo.

Mas como a sociedade brasileira, em sua grande maioria, ignorou os detalhes que alimentaram este crescimento, a notícia é ótima para produzir resultados nos palanques. E palanque, sabemos todos, é coisa que melhor esta gente entende.