segunda-feira, março 07, 2011

A “Presidenta” da Marta

Sebastião Nery

RIO - Nereu Ramos assumiu a Presidência da República em 1955, depois da tentativa de golpe de Café Filho e Carlos Luz para impedirem a posse de Juscelino. O marechal Lott, ministro da Guerra, evitou o golpe.

Uma tarde, Nereu mandou seu secretario, André Mesquita, que estava chegando de Bordeaux (França) com sotaque carregado, pois viveu infância e juventude lá, onde o pai era cônsul do Brasil, levar uma mensagem a Lott. Encontrou o marechal numa reunião de comando:

- Marrrechall, trrrago este mensarrrem do senrror perrrsidente, secrrreta e rreserrrvada.

E saiu. Lott olhou para os oficiais em torno da mesa:

- Estamos perdidos. Mensagem secreta na mão de um estrangeiro.

Evilasio
Evilásio Vieira, o Lasinho, senador eleito do MDB de Santa Catarina em 1974, chegou a uma pequena cidade bem dentro da região da colonização alemã, para fazer um comício. Não conhecia ninguém ali.

Anunciou seu discurso e foi para o palanque. Já no fim, depois de analisar a situação de abandono da agricultura catarinense, acusando o governo pela crise do interior, o povo na praça ouvindo-o atentamente e em silêncio, alguém pede um aparte. Era um velhinho, a cabeça toda branca, a cara rosada e com uma capa de gabardina pois a noite estava fria:

- Eu poderrr falarrr aí em cima?

- Claro. Suba, por favor. Este palanque não é meu, é de vocês.

- Eu querr porrnurrciarr alguns palavrras. Eu serr vigárrio deste parróquia.

O Vigario
Evilásio ficou empolgado, interrompeu o vigário e começou a

mostrar como a Igreja, com sua nova posição, depois do Concílio Vaticano II, acabou ao lado do programa do MDB, pois não havia diferenças entre o que a Igreja e a Oposição queriam. O vigário pegou o microfone :

- Eu perrcisarr dizerr que tudo isso que candidato falarr aqui esta noite serr mentirra. Goverrno fazerr Mobrrall, fazerr Trransamazônico, fazerrr milagrre brrasileirro, oposiçon non fazerr nada. Só falarr, falarr. Todos deverr irr prrra casa dormiirrr, agorrra mesmo.

E desceu. O povo foi atrás. Evilásio também teve que descer.

Cada um tem sua linguagem. Não pode é querer impor aos outros.

Marta
A elegante, simpática e desbocada senadora Marta Suplicy resolveu inaugurar-se no Senado corrigindo o cochilante presidente José Sarney, porque ele chamou a presidente Dilma Roussef de “presidente”.

- Não é “presidente” não, senador. É “presidenta”.

Sarney deu-lhe uma resposta cordial mas irônica :

- Senadora, prefiro a formula francesa : - “Madame le President”.

A senadora pensa que a lingua é botox, que cada um embute como quer. Como diria Dona Marta, não sei quem inventou essa babaquice de “presidenta”. Deve ser baianada do João Santana, para Lula conseguir falar.

Queria ver o que faria a senadora no Rio, encontrando-se com a nova Chefe de Policia, a charmosa e competente delegada Marta Rocha. Iria chama-la de “competenta Chefa de Policia”? Podia receber voz de prisão.

Dilma
Indignados, leitores mandam pencas de exemplos, toda vez que a presidência da Republica anuncia na TV ou nos jornais a presença da “presidenta Dilma”. A lingua é um dos símbolos da unidade nacional.

O que a Dilma está permitindo que seus puxa-sacos repitam é uma agressão. Se o pais todo fala “a presidente”, por que querer ser exclusiva e “diferenta”? Já não bastam a retumbancia física e o cabelo em espiral?

As “gerentes” dos programas do governo ela chama de “gerentas”? As “serventes” de seu cafezinho são “serventas”? E as “estudantes” da Universidade de Brasília ou da escolinha da Ceilandia são “estudantas”?

As jovens das baladas do Lago Sul de Brasilia são “adolescentes” ou “adolescentas”? Quando a Presidente vai ao medico é uma “paciente” ou uma “pacienta”? Ela prefere ser chamada de “elegante” ou “eleganta”? Ora, presidente Dilma, não deixe que, só para rimar, a chamem de anta.

“Presidenta”
O filólogo e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), José Bones, pôs na internet esta frase absurda e palaciana :

- “A Presidenta se comporta como uma adolescenta, pouco pacienta, imaginando ter virado eleganta depois que se tornou nossa representanta. Esperamos vê-la sorridenta numa capela ardenta, pois nossa dirigenta não tem o direito de violentar o pobre português só para ficar contenta.

Pior é que a Voz do Brasil já fala Presidenta. Caramba! Além de estropiarem o país estão a estropiar nosso idioma, desrespeitando seus fundamentos etimológicos. Infelizmente ela não é nossa “ouvinta”.