Hugo Souza, Opinião & Notícia
Enquanto o país se consolida como uma das maiores economias, milhões de brasileiros ainda não têm acesso a esgoto.
(Fonte: Época)
Propaganda da ONG internacional World Wildlife Fund em 2009
Um levantamento da Associação dos Fabricantes de Materiais para Saneamento divulgado no início de março mostrou que as vendas do setor despencaram mais de 15% no primeiro bimestre de 2011 em relação ao mesmo período do ano passado. Trata-se de um ramo altamente dependente da demanda do poder público, e a queda, que só no mês de fevereiro chegou a 19%, não tem outro motivo senão o atraso em obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) idealizadas para minimizar um descalabro nacional, o de metade da população brasileira não ter acesso a esgoto.
Um relatório divulgado recentemente pelo Instituto Trata Brasil, organização não governamental que atua na área de saneamento básico, mostrou que apenas 4% das obras de esgoto do PAC nos maiores municípios do país foram concluídas até o final de 2010, quando o planejamento era de que 60% delas estivessem prontas até o fim do ano passado.
Das 101 obras de saneamento e esgoto monitoradas pelo Trata Brasil, todas em municípios com mais de 500 mil habitantes e que envolvem investimentos totais da ordem de R$ 2,8 bilhões, apenas quatro foram concluídas.
Treze milhões de sem-privada
Vinte e duas obras estavam atrasadas no fim de 2010 e 11 delas sequer haviam começado. Nada menos do que 30 obras de saneamento básico do PAC estavam paralisadas no final do ano passado. Apenas uma obra se encontrava em estágio avançado e outras três ainda estavam na fase de licitação.
No início de abril, depois de se reunir com os empresários queixosos do setor de materiais para saneamento, o ministro das Cidades, Márcio Negromonte, disse que o governo está amadurecendo a ideia de usar emendas parlamentares para destinar recursos à área. Os investimentos médios em saneamento no Brasil são atualmente de R$ 5,4 bilhões por ano, mas especialistas dizem que deveriam ser três vezes mais do que isso para que a universalização do saneamento básico no país seja alcançada até o ano de 2030.
Quando o presidente dos EUA, Barack Obama, disse no Teatro Municipal do Rio que o Brasil é o país de um futuro que já chegou, talvez ruborizasse se naquele exato instante fosse confrontado com o fato de que 13 milhões de habitantes desta festejada potência tropical não têm vaso sanitário, segundo dados da OMS, do Unicef e do próprio instituto Trata Brasil.
Mau cheiro é o de menos
Sétima economia do mundo, o Brasil está também entre as dez nações com o pior sistema de saneamento do planeta, ainda segundo a OMS e o Unicef. Os indicadores brasileiros das áreas urbanas são piores, por exemplo, do que os da Jamaica, República Dominicana e até dos territórios palestinos, e os da área rural são comparáveis aos indicadores africanos.
E quando se fala em saneamento básico no Brasil, o principal drama não é o mau cheiro que os visitantes que chegam ao Rio pelo aeroporto Internacional Tom Jobim sentem na Linha Vermelha por conta das imensas valas negras em que os canais daquela região se transformaram. As obras de dragagem dos canais do Cunha e do Fundão já começaram. Foi um compromisso assumido pelo governo fluminense junto ao Comitê Olímpico Internacional, visando as Olimpíadas de 2016.
Com a população pobre, a que sofre com a diarreia, a hepatite e as verminoses — os verdadeiros dramas do saneamento básico, ou da falta dele — , a que mora nos bairros populares e nos grotões onde não passam os ricos, as excelências e as delegações esportivas, com essa gente, os compromissos são os de campanha, quando muito. E esses, como se sabe…
