Ricardo Setti, Veja online
O senador Roberto Requião (PMDB-PR) adora ser do contra. Faz parte de sua natureza.
O problema é que, às vezes, o ex-governador do Paraná, em sua peremanente ânsia de criticar, não consulta direito os dados disponíveis.
Da tribuna do Senado, Requião desceu o porrete no projeto do governo, enfim aprovado, que autoriza financiamento de 20 bilhões de reais do BNDES para o consórcio que vencer a licitação para construir o trem-bala que ligará Campinas (SP) a São Paulo e Rio de Janeiro.
Mesmo sendo advogado e jornalista, Requião deu uma de engenheiro, opinando que a obra não tem viabilidade técnica devido ao elevado custo de construção “de inúmeras pontes e túneis necessários para se conseguir fazer um trajeto o mais alinhado possível, a fim de que o trem possa alcançar altas velocidades”.
É curiosa a afirmação, porque elevado custo de construção não significa inviabilidade técnica. Mas passemos ao principal.
Requião questionou, acertadamente, a viabilidade financeira do empreendimento: os trens-balas em quase todos os países são subsidiados pelos governos. O problema foi quando acentuou que “apenas nos Estados Unidos e na China” os trens de alta velocidade são lucrativos.
O detalhe é que os Estados Unidos, embora possuam uma das melhores e mais extensas malhas ferroviárias do mundo, não têm ainda nenhum trem-bala. Nenhumzinho.
O que existe mais próximo disso é o Acela Express, da estatal Amtrak, que liga Boston a Nova York, Filadélfia, Baltimore e Washington e que, em certos trechos, durante poucos minutos, atinge 240 quilômetros por hora. A média para o trecho inteiro é de 110 quilômetros por hora.
Os trens-balas no Japão passam de 300 por hora, em países europeus variam de 250 a mais de 300, na China vão a mais de 400.
De onde Requião tirou trens de alta velociade nos EUA, e ainda mais lucrativos, ninguém sabe.
Trem bala chinês:
mais de 400 quilômetros por hora

