Claudio Carneiro, Opinião & Política
Para chegar às páginas de jornais, pouco vale destacar-se por seu conhecimento, inteligência ou formação.
Um assassino foi o grande personagem da mídia esta semana
Capa de todas as revistas semanais – exceto a Carta Capital – e primeira página de todos os grandes jornais brasileiros, um assassino é o grande personagem da mídia de um país que não sabe descobrir seus verdadeiros heróis e personagens relevantes. Com suas imagens inéditas e exclusivas na TV, o idiota de Realengo ganhou o destaque que pode estar – nesse exato momento – estimulando outras mentes doentias a fazer bobagens semelhantes para que seus nomes e fotos sejam estampados em cada calhau do jornalismo tupiniquim.
Nem é preciso citar o nome dele aqui. Todos os brasileiros já o conhecem muito bem. Melhor seria dar mais espaço para o policial militar Márcio Alexandre Alves que cumpriu seu dever com coragem e competência. Mas não. A mediocridade impera e os holofotes estão apontados para este triste personagem que adquiriu status semelhante ao de Fernandinho Beira-Mar que, durante meses, desfilou de jatinho – com ampla cobertura da imprensa – por diversas prisões de segurança máxima espalhadas por este território incapaz de reconhecer o talento e a inteligência de seus cidadãos.
Contraventores, infrutíferas mulheres-frutas e políticos corruptos, só para citar alguns exemplos, transformaram-se em referências nacionais. Os primeiros aparecem durante o carnaval, por exemplo, exercendo seu poder nas comunidades. As segundas deixam seus “Pânicos” e “Bebebês” para conquistar seu discutível estrelato enquanto os terceiros sequer sentem vergonha de mostrar que estão mesmo por cima da carne seca.
Para chegar às páginas, pouco deve valer levar-se uma vida digna e, num determinado momento, destacar-se por seu conhecimento e formação. De nada servirá o exemplo de Luis Henrique Pimentel Bennaton Usier, de 17 anos, estudante de Guararema, no interior paulista, aprovado no curso de Relações Internacionais na Universidade de São Paulo (USP). Por seu bom desempenho em olimpíadas internacionais de biologia, química, matemática e robótica, ele vai visitar três universidades norte-americanas para as quais foi convidado — Harvard, Princeton e Columbia – e escolher em qual delas vai estudar. Pobre Luis Henrique. Jamais terá seu nome pronunciado por William Bonner. Para virar pauta jornalística, o personagem precisa delinquir, roubar, barbarizar.
Traficantes, como se sabe, ganham muito dinheiro e têm muitas propriedades. Sequer estranhamos como têm acesso à documentação e legalização de seu grande patrimônio, como imóveis, carros, lanchas e outros bens. Cotados entre nossos melhores e exemplares atletas, ganhadores de medalhas e títulos mundiais, patriotas emocionados, os Hipólyto – Daniele e Diego – foram vítimas de patrulhamento nos últimos dias porque conseguiram comprar um apartamento de seis quartos na Barra da Tijuca. O imóvel, explicaram, vai abrigar toda a família, inclusive tia e primos. “Este ano, vendi o meu carro para ajudar mais no apartamento, abri mão desse conforto”, disse Daniele. Depois de anos dedicados ao esporte e ao país, os Hipólyto compraram um apartamento. Ah, Diego, se você traficasse…
Diferente dos Estados Unidos, Canadá, Cingapura e outros países desenvolvidos, somos o rincão que não privilegia o mérito mas o oportunismo. Pais de alunos ordeiros e de boas notas nunca são chamados nas escolas. Já os responsáveis por estudantes com notas baixas e mau comportamento estão sempre no serviço de orientação educacional. Merecem mais atenção. Quando o problema é superado, estes se tornam os símbolos da escola. Já os “normais” – aqueles que nunca deram trabalho – não merecem prêmio ou reconhecimento. Nossas escolas também não estimulam a competição e o desempenho. Nossos melhores alunos ou são CDF ou são “nerds”. É “mico” ser bom aluno. Isso está em nosso DNA.
