segunda-feira, junho 06, 2011

Acidentes acontecem!

Claudio Schamis, Opinião & Notícia

Não sei o que é pior, ouvir que foi um acidente, ou ouvir que a coisa nunca existiu como ainda acredita Lula no caso do mensalão.

Essa frase não é minha. É do imortal José Sarney. Imortal mesmo, pois não arreda o pé da cadeira de presidente do Senado. E a quem Lula carimbou como sendo um homem incomum.

Talvez deva ser mesmo, por ter a nobreza do perdão em sua alma. Se não fosse isso, não teria classificado o vergonhoso impeachment de Collor como um mero ‘acidente’ de percurso. Tanto que num primeiro momento o fato em si não constava da exposição do “Túnel do Tempo” do Senado, que mostra fatos sobre a História do Congresso. E acidentes não são fatos, são acidentes. Como o nome sugere. Mas depois de uma noite onde deveria desfrutar do sono dos justos, e que foi muito mal dormida, Sarney resolveu, em vez de olhar o fato de uma forma, olhou com outros olhos, talvez visando ou vislumbrando algo mais além. Mas isso só para quem tem olhos de águia.

E quem sabe não foram esses mesmos outros olhos de águia – dessa vez esses outros olhos não são do Sarney – que vislumbraram algo que só eles conseguiram enxergar e fizeram com que uma simples e inocente compra de termômetros e aparelhos de pressão para equipar o Instituo Médico Legal (IML) aqui do Rio de Janeiro fosse realizada. Assim como a compra de um compressor para pintura de automóveis para ser usado pelo Setor Odontológico desse mesmo IML. Isso, na visão deles, deve ter sido um mero acidente. Vai ver não entenderam a solicitação, erraram de endereço. Sei lá. Um mero acidente de gasto do dinheiro público.

Mas como disse mesmo Sarney, acidentes acontecem.

E nós vamos vivendo cada dia nosso à mercê desses acidentes. E tantos outros.

Mas não sei o que é pior, ouvir que foi um acidente, ou ouvir que a coisa nunca existiu como ainda acredita Lula no caso do mensalão. E no caso mais recente envolvendo o ministro Palocci ainda vai aparecer alguém e dizer que a compra do apartamento foi um acidente, que a consultoria dele é um acidente, que ele é um acidente. E que só mesmo por acidente ele irá depor nessa vida.

É óbvio que é muito mais simples classificar qualquer fato esdrúxulo como acidente do que assumir o fato que de fato aconteceu porque fulano quis assim e que ele tinha consciência total do que fazia.

Aí a coisa complica, pois de um lado temos pessoas que têm plena convicção de que fizeram a coisa certa e que está longe de ter sido um acidente, e eu já classificaria como um grave acidente a publicação e distribuição do livro “Por uma vida melhor” contendo os erros de concordância e destinado ao ensino fundamental. Onde jovens e adultos aprenderiam que é correto falar errado. Seria então escorreito dizer que começa a fazer sentido toda essa movimentação e blá, blá, blá, do ministro Haddad de que essas críticas ao livro são coisas de quem não leu a obra e de ‘fascistas’. Eu não me considero tal, muito menos antidemocrático. Mas democracia tem limite. E esse limite deveria se limitar a burrice. Quando atingíssemos ela, seria hora de parar e rever valores.

Mas por outro lado, se formos analisar o próprio nome do livro já me diz muita coisa. Agucei minha visão, fui ao oculista, coloquei meus óculos de grau e simplesmente vi. Vi que “Por uma vida melhor” é justamente isso, pois quanto menor o grau de educação, a vida do político em geral será melhor. Assim como será bem melhor a vida da autora que embolsou como já disse, R$ 700 mil na venda do livro. E a editora R$ 5 milhões.

Aproveitando o gancho do nome do livro, acho que também não foi um mero acidente a decisão da presidente Dilma em proibir a distribuição do kit de combate à homofobia. Isso sim faria coro com o nome do livro e faria a vida de muita gente melhor, mas o governo mostra que a definição de uma vida melhor está longe de ser algo relacionado com a nossa vida.

Salvem as baleias. Não jogue lixo no chão. Não fume em ambiente fechado.