Josias de Souza, Folha online
Depois de se considerar dono do Senado, empregando sobrinhos, neta, namorado da neta, viúva do motorista, cunhada, tudo através de atos secretos, agora José Sarney se julga também o dono da História.
Uma espécie de Stalin tropical.
Mas enquanto Stalin apagava (às vezes literalmente) seus inimigos da história russa, Sarney tenta reescrever a história do Brasil a seu bem-prazer.
No “Túnel do Tempo” do Senado, corredor que liga o plenário às comissões, o senador inaugurou paineis sobre a história do Legislativo brasileiro e simplesmente mandou retirar aqueles relativos ao impeachment de Fernando Collor.
Alegação do nobre parlamentar marenhense: “O impeachment foi um acidente que não deveria ter acontecido na história do Brasil”.
Continua um fofo esse Sarney. Maroto, maroto.
Acidente foi o governo Sarney, depois da tragédia que nos levou Tancredo Neves.
Aliás, acidente não, foi um desastre. O pior governo depois da redemocratização. Inaugurou o instituto do toma lá dá cá dentro do Congresso. Praticamente comprou mais um ano de mandato. Oitenta por cento de inflação ao mês.
Governo medíocre.
Um processo de impeachment é uma coisa muito dolorosa na vida de uma democracia.
Mas quando acontece é uma das maiores demonstrações de vitalidade das instituições.
É a hora que se mostra que as instituições funcionam, porque o primeiro mandatário do país é processsado dentro da lei. A Câmara vota o impeachment, o Senado julga o presidente e aprova seu afastamento.
No caso de Fernando Collor, os poderes funcionaram, e tudo aconteceu dentro da lei.
Dizer que tudo isso foi um acidente é debochar das instituições brasileiras.
————————–
Depois da péssima repercussão de seu gesto stalinista, sua Excelência mandou dizer que vai recolocar os paineis relativos ao impeachment no Túnel do Tempo.
