quarta-feira, junho 08, 2011

Dizem que Dilma mudou a política externa. É mesmo? Quando e onde ?

Adelson Elias Vasconcellos

A iraniana Shirin Ebadi,
Prêmio Nobel da Paz de 2003, que Dilma se negou em receber

Não foi por falta de aviso e precaução, não pelo menos neste blog. Nunca o discurso de um petista terá o dom de desfazer o que o seus atos realmente significam. E, entre o discurso e a realidade destes atos, existe um enorme abismo.

Quando a presidente Dilma resolveu advertir o governo Irã sobre o apedrejamento da iraniana Sakineh, o país, quase que em uníssono resolveu comemorar os novos tempos.

Daqui, vi a atitude com reservas. E afirmei que, se mudanças se poderia comemorar na política externa brasileira, isto somente seria possível se e quando o governo Dilma recriminasse publicamente os regimes do próprio Irã juntamente com os de Cuba e Venezuela.

Hugo Chavez no Brasil:
Apesar do calote de mais de R$ 3,6 bilhões, recebido com festa

Nesta semana, entre paparicos e gracejos, Dilma resolveu o beiçola venezuelano e assinou alguns acordos. Em Cuba, Lula foi visitar obras que estão sendo financiadas pelo governo brasileiro, via BNDES. E com relação à Venezuela, por exemplo, apesar do calote, coisa de R$ 3,6 bilhões, o Brasil se comprometeu em jogar mais dinheiro naquele país, afinal, em 2012 haverá eleições presidenciais por lá, e é preciso, digamos, vitaminar a campanha do “Comandante”.

Só esses episódios já atestariam que, matéria de política externa, o Brasil continua unido mais do que nunca com a escória mundial. Exemplo é a genuflexão recente ao Paraguai em que jogamos no lixo um tratado sobre Itaipu, que será bancado pelo povo brasileiro que, diga-se de passagem, já paga a tarifa de energia mais cara do mundo. Continuará sendo assim porque resolvemos financiar governos estrangeiros enquanto o nosso povo continua sem educação, saúde, segurança, saneamento, infraestrutura, porque os recursos que se arranca do povo, é direcionado para outros povos, comandados pela bandeira do arbítrio. E o Paraguai já avisou que vai querer mais.

Pelo lado da Bolívia, também concordamos em jogar no lixo o acordo do Gasoduto, para aceitar que a Bolívia nos tomasse na marra uma refinaria da Petrobrás, estabelecesse o preço que bem entender pelo gás que nos fornece, além de não cumprir com o fornecimento da quota a que está obrigado por contrato. Exemplo disto é a usina Termelétrica de Cuiabá que está sem gás há mais de quatro anos. E só para lembrar: tanto a usina de Itaipu quanto o Gasoduto Brasil-Bolívia foram inteiramente bancados com capital brasileiro. Além deles não jogarem um tostão furado nos empreendimentos, o Brasil garantiu renda extra sobre um fornecimento fantasma, mesmo que ele use pagará o preço acordado.

Chavez, entrou de sócio numa Refinaria em Pernambuco. Dinheiro que é bom, até hoje ele não colocou nenhum, mas continua sócio, e o Brasil continua empurrando grana para ele praticar suas asneiras contra seu próprio povo.

Tudo isto, todos estes desatinos de parte do governo petista, consagrados por Lula, senhores, continuam do mesmo jeito. Portanto, onde está a mudança?

Veja-se o caso da Argentina. Bastou o Brasil devolver um dos muitos desaforos com que eles nos vêm tratando, para aquele país se rebelar e exigir satisfações pelo lado brasileiro. Reunidos os ministros dos dois países, pelo lado brasileiro, demonstrando um gesto de boa vontade, voltamos a liberar sem licença prévia os carros lá fabricados. E eles? Nada, nadinha, tudo ficou para ser estudado, revisto, empurrado para um futuro incerto e desconhecido. Ou seja, boa vontade, mesmo, apenas de nossa parte, já do lado dos hermanos...

Ministro do Desenvolvimento e Indústria, Fernando Pimentel,
reuniu-se com sua colega argentina, para discutir a "relação"

Um último exemplo de que nada mudou, que tudo continua no mesmo ritmo ordinário e de pura falta de imposição e respeito à nossa soberania, ocorreu na semana passada. Dilma Rousseff, presidente do Brasil, negou-se em receber a Prêmio Nobel da Paz de 2003, a iraniana Shirin Ebadi, porque ela é apenas uma reles ativista de direitos humanos, perseguida e exilada. Dilma não quis desagradar Ahmadinejad, o sanguinário ditador do Irã, com quem o governo petista vem flertando desde os tempos de Lula. Se a iraniana fosse uma banqueira, Dilma receberia. Afinal de contas, em 25 de maio de passado, a presidente recebeu Muhammad Yunus, banqueiro bengalês, que foi premiado com o mesmo Nobel da Paz, em 2006. Portanto, aquele papo de política externa centrada em direitos humanos, é só papo furado. Nada além disto.

Contudo, diante destes fatos todos, onde estão aqueles comentaristas, analistas e jornalistas que se “encantaram” com os propalados ventos de mudança? Ou perderam a voz, ou o argumento. A política externa brasileira pode ter mudado de roupagem, mas não o tom nem o conteúdo.