sexta-feira, março 09, 2012

Do jeito que vai, a Petrobras poderá estar produzindo 30% menos do que o previsto em 2020. É um dos desafios para sua nova presidente

Ricardo Setti, Veja online

(Foto: Divulgação)
NACIONALISMO OBTUSO -- 
Petroleiro "João Cândido", encalhado em Pernambuco: 
revés para o conteúdo nacional 

Amigos, esse trecho de reportagem da jornalista Malu Gaspar, publicada em recente edição de VEJA, dá uma ideia do tamanho do desafio que aguarda a nova presidente da Petrobras, Graça Foster, merecedora da confiança e da amizade da presidente Dilma. O título da reportagem original é “Graça Foster: o petróleo é com ela”.
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A principal missão atribuída à nova presidente da Petrobras, Graça Foster, pela presidente da República não é desmontar o trem da alegria do sindicalismo ou tomar dos políticos o controle da empresa. A presidente quer que Graça acelere a exploração das reservas do pré-sal, capazes de transformar o Brasil em uma das dez maiores potencias petrolíferas do mundo, mas que avança em ritmo lento.

Um relatório do banco Credit Suisse demonstrou que faltam dinheiro, mão-de-obra e equipamentos para cumprir os prazos. Segundo o banco, no passo atual, a Petrobras chegará a 2020 produzindo, na melhor das hipóteses, 4,6 milhões de barris ao ano. Mais que o dobro de hoje, mas 30% menos do que o previsto.

Cumprir a missão pressupõe fazer a empresa render mais, gerando mais caixa, investindo em pessoal e, ao mesmo tempo, comprando equipamentos ao menor preço possível.

(Foto: veja.abril.com.br)
Graça Foster enfrenta vários desafios: 
no passo atual, a Petrobras chegará a 2020 produzindo 
30% menos do que o previsto 

“Em nome de objetivos do governo, a empresa sacrifica o lucro e a produtividade”

A questão é como fazer isso em uma companhia que já queimou, nos últimos oito anos, 12 bilhões de reais só com subsídios aos combustíveis, para não ter de repassar os custos do mercado internacional aos consumidores e nem os prejuízos políticos de grandes reajustes ao governo.

Durante os mandatos de Lula e Dilma, a Petrobras foi a muleta que ajudou a abrigar a inflação dentro da meta, reduzindo investimentos quando necessário para não encher a economia de dinheiro e soltando as rédeas da gastança quando o governo precisava fazer caixa para fechar suas contas.

Com tamanha sobrecarga, estatal acabou investindo 22 bilhões de reais a menos do que o previsto nos últimos três anos e também não atingiu as próprias metas de produção. “Esse é o resultado do que chamo de expropriação da Petrobras. Em nome de objetivos do governo, a empresa sacrifica o lucro e a produtividade e ainda pune seus milhares de acionistas”, diz Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura.

Como se não bastasse, Graça ainda terá de fazer com que as contas da estatal absorvam o impacto financeiro causado pela exigência de que seus equipamentos tenham 65% de conteúdo nacional.

A obtusa norma do “conteúdo nacional”
Criada ainda no governo Lula e caríssima à Dilma, a obtusa norma, que vale para também para as empresas privadas, visa, hipoteticamente, desenvolver a cadeia produtiva do petróleo. Mas vem produzindo um problema atrás do outro.

Dois exemplos dessa encrenca saltam aos olhos. O primeiro é o petroleiro João Cândido, construído pelo Estaleiro Atlântico Sul, com entrega atrasada em dois anos e preço já maior do que o dobro do cobrado no mercado externo.

O segundo abacaxi é a licitação de 21 sondas para o pré-sal, adiada duas vezes por causa dos altos preços apresentados pelos estaleiros nacionais. A dificuldade em comprá-las a valores razoáveis no Brasil fez[o antecessor de Graça Foster, José Sérgio] Gabrielli cogitar, acertadamente, em comprar as sondas no exterior. A ideia foi rechaçada por Dilma.

O mau exemplo da Pemex, do México
Os riscos do nacionalismo dogmático e o uso da Petrobras para ajudar a conter a inflação podem ser entendidos melhor por quem analisar o caso mexicano. Ou, mais especificamente, o que o governo do México fez com a monopolista Pemex, a estatal de petróleo que é, ainda mais que a Petrobras, um Estado dentro do Estado.

Lá, o lucro da Pemex é tomado imediatamente pelo Estado e enviado para uma espécie de caixa único. Depois, o governo manda parte para projetos sociais e parte para os investimentos da estatal.

O resultado é que a Pemex investe menos do que é necessário para reforçar suas reservas. E, embora o México seja ainda o sexto maior produtor de petróleo do mundo, suas reservas não param de diminuir.

(Foto: Agência Brasil)
PROMESSA DIFÍCIL -- 
Plataforma do pré-sal na Bacia de Campos: 
ritmo lento e preços altos atrapalham exploração

No Brasil, para conseguir recursos para extrair o óleo do pré-sal, é necessário que a Petrobras se livre dessas amarras. Do contrário, não haverá geração de caixa, financiamento ou empenho que dê jeito.

A esperança é que, quando o governo se der conta que a temperatura subiu, ameaçando explodir os ambiciosos planos do pré-sal, uma lufada de bom senso faça alterar essas regras. Esse é o ponto-chave do desafio de Graça Foster frente à Petrobras.