Ricardo Setti, Veja online
(Foto: Drawlio Joca)
CRIME E RECOMPENSA --
A explosão da criminalidade no Nordeste fez prosperar serviços
como o do cearense Antonio Souza, que aluga cães de guarda
Dinheiro, sangue e caos
A prosperidade do Nordeste não atraiu apenas investimentos – os bandidos também migraram para lá. E, diante do despreparo e das greves na polícia, estão fazendo a festa
Por um dia, a quinta maior capital do país virou uma cidade fantasma. Foi no dia 5 de janeiro, quando as mais movimentadas avenidas de Fortaleza ficaram desertas. Lojas de todos os bairros fecharam as portas. Turistas foram obrigados a abandonar as praias e se refugiar nos hotéis.
O medo tomou conta dos moradores – e não sem motivo. Cenas de um linchamento de um suspeito de roubo foram parar na internet e, na televisão e nas rádios, multiplicaram-se as notícias de assaltos e arrastões cometidos por bandidos que se aproveitaram da ausência de policiais nas ruas.
Do dia 29 de dezembro até a noite de 3 de janeiro, os policiais militares de Fortaleza ficaram aquartelados e deixaram a já conflagrada capital cearense à mercê dos criminosos.
Ao darem curso a uma greve ilegal, aproximaram-se daqueles que deveriam combater. Adotaram o figurino e o comportamento dos marginais. Com o rosto coberto por capuzes para não serem reconhecidos, e punidos, eles ameaçaram quem queria trabalhar, depredaram viaturas e ignoraram a ordem judicial de retornar às funções.
Na sequência da greve da PM, os policiais civis da capital também cruzaram os braços. As delegacias ficaram paradas e até o Instituto Médico Legal teve suas atividades comprometidas.
MEDO --
Com a greve da polícia, o comércio de Fortaleza baixou as portas
por quase uma semana e acumulou um prejuízo de 4 milhões de reais
Em 2011, outros quatro Estados nordestinos – Alagoas, Maranhão, Paraíba e Piauí – padeceram com greves de policiais.
Em comum, todos eles compartilham o fato de ser mal pagos, mal treinados e mal equipados.
A bandidagem tem tirado o máximo proveito da situação. Na última década, o número de homicídios dobrou na região. Atualmente, um em cada três assassinatos cometidos no Brasil é registrado entre os nordestinos.
Quando comparadas as taxas de homicídio, o Nordeste só perde para a Região Norte, onde em 2010 a taxa chegou a 37,4 assassinatos para cada 100 000 habitantes. Das cinquenta cidades onde mais se mata, 37 ficam no Norte ou no Nordeste. Trata-se de um fenômeno iniciado na última década cuja raiz, afirmam especialistas, está na migração da criminalidade.
“Além dos bandidos locais, quadrilhas organizadas de outros Estados migraram sobretudo para o Nordeste, atraídas pelo aumento do poder aquisitivo da região e para fugir do endurecimento das polícias, principalmente a de São Paulo”, afirma Carlos Alberto da Costa Gomes, coordenador do Observatório de Segurança Pública da Universidade Salvador (Unifacs).
COMO BANDIDOS --
Não parece, mas os mascarados acima são policiais militares do Ceará.
Entre o final de 2011 e a primeira semana de janeiro eles invadiram quartéis,
depredaram viaturas e deixaram a capital, Fortaleza, à mercê dos marginais
A fragilidade das forças policiais nordestinas é flagrante.
No Ceará, onde o governo gastou 64 milhões de reais para comprar 428 viaturas modelo Toyota Hilux SW4 (cada uma custou ao Erário 150 000 reais e resultará num custo de manutenção de 28 000 reais anuais), o tempo de formação dos policiais do programa chamado Ronda do Quarteirão foi reduzido de seis para três meses.
Na Paraíba, o governo adquiriu equipamentos de análise pericial de última geração, mas não consegue usá-los, já que não há policiais com treinamento adequado para operá-los. “Grande parte dos administradores estaduais dessas regiões teve gestões desastrosas em relação à segurança”, diz o coronel José Vicente, ex-secretário nacional de Segurança Pública. Para o especialista, isso produz reflexos não apenas entre criminosos. “Quando o cidadão percebe que a impunidade reina, os conflitos resolvidos a bala tendem a aumentar drasticamente.”
Ganhando dinheiro com o medo
Enquanto as políticas públicas fracassam, certas atividades privadas prosperam.
O empresário Antonio Ricardo de Souza, por exemplo, dono de uma empresa de segurança, garante 70% de seu faturamento com fornecimento de cães de guarda para condomínios, lojas, empresas e até uma funerária de Fortaleza. Por um guarda acompanhado de um animal treinado, Souza cobra 4 700 reais por mês.
Seu negócio cresce a taxas anuais de 11%. “Os cães têm ganhado do mercado de seguranças armados por causa do medo que as pessoas têm de tiroteios”, diz.
O Nordeste apresentou o maior aumento do Produto Interno Bruto entre as regiões brasileiras na última década e exibiu os melhores indicadores de redução da pobreza. Mas a explosão da criminalidade na região mostra que ele não se preparou para enfrentar esse crescimento.
(Reportagem de Kalleo Coura e Júlia de Medeiros publicada na edição impressa de VEJA)
A migração do crime
Em dez anos, as regiões Norte e Nordeste apresentaram as maiores elevações no número de assassinatos
Ceará: alta de 80% nos homicídios em uma década
Rita de Sousa
Índice saltou de 16 para 29 assassinatos a cada 100.000 habitantes de 2000 para 2010. Em Fortaleza, a taxa chega a 42 mortes
Victor Barroso/Leitor
Avenida Beira Mar, uma das principais de Fortaleza,
vazia por causa do medo criado com a greve da polícia no estado -
O clima de medo que tomou conta de Fortaleza nos últimos dias por causa da greve de policiais militares e bombeiros no Ceará tem razão de ser. Até que a paralisação fosse encerrada, já na madrugada desta quarta-feira, a falta de patrulhamento na cidade havia encorajado criminosos a sair às ruas e atacar pedestres, motoristas e o comércio. E, apesar do acordo, a situação no estado ainda não foi completamente resolvida, já que os policiais civis decidiram entrar em greve na madrugada desta terça-feira. É a terceira paralisação da categoria desde julho de 2011. A situação instaurada na capital cearense nos últimos dias é reflexo de um triste fenômeno: o salto da criminalidade em regiões do Norte e Nordeste, que sofrem com a migração da bandidagem expulsa dos grandes centros. Para se ter uma ideia, a taxa de homicídios a cada 100.000 habitantes - um termômetro da segurança pública - subiu 80% no Ceará em dez anos. Em 2000, o índice era de 16,5 mortes. Pulou para 29,7 em 2010. Segundo o Ministério da Justiça, o Ceará tem um efetivo de 15.258 policiais militares, maior do que Alagoas e Maranhão. No estado, trabalham 1.659 bombeiros.
A capital, Fortaleza, e a região metropolitana ainda concentram a maioria dos crimes (a taxa de assassinatos é de 42,9). No interior, a incidência de homicídios dobrou no período, pulando de 10,1 para 20,3 a cada 100.000 habitantes. Os dados constam do Mapa da Violência 2012, do Instituto Sangari, que compila dados do Ministério da Justiça e foi divulgado em dezembro. O estudo mostra que Fortaleza subiu sete posições em um lamentável ranking, o das cidades com maior taxa de homicídios: passou da 19º colocação em 2000 para o 12º lugar em 2010.
Até a década de 1980, as grandes metrópoles concentravam riqueza, investimentos, indústrias e comércio de maior porte, o que atraía a imigração de trabalhadores e, consequentemente, maiores índices de criminalidade. No início da década de 1990, foi consolidado o movimento de desconcentração econômica no Brasil, com a indústria se instalando em regiões do Nordeste ou no interior dos estados, o que atraiu mão-de-obra – especializada ou não –, imigrantes e a criminalidade para regiões que não tinham tradição nem condições de enfrentá-la.
"Esses novos polos de crescimento são atrativos de pessoas e criminalidade e estavam historicamente despreparados para combatê-la", afirma Julio Jacobo Waiselfisz, Diretor de Pesquisas do Instituto Sangari.
Configuração - Em meados da década de 1990, o Ministério da Justiça criou o Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP), um pacote de combate à criminalidade que levou para as grandes metrópoles melhorias para as forças policiais, como treinamento, estrutura tecnológica, conceitos de qualidade, aparelhamento, recursos e investimento. Isso acabou empurrando a violência para o interior. São Paulo, por exemplo, ocupava o 4º lugar no ranking nacional de crimes em 2000 e despencou para a 25ª posição em 2010.
"O plano nacional de combate ao crime expulsou a criminalidade dos grandes centros", afirma Waiselfisz, que explica que o deslocamento da violência para regiões emergentes, como Pará, Ceará, Alagoas e Mato Grosso fez crescer o índice de homicídios nessas regiões.
"A taxa de homicídios no Brasil está estagnada entre 25% e 26% desde 2000, porque, ao mesmo tempo em que diminuiu nos grandes centros urbanos, aumentou em outras regiões. É uma nova configuração da violência. O que acontece no Ceará é igual ao que acontece em outras 17 unidades federativas", explica Waiselfisz. "Mato Grosso, Maranhão, Santa Catarina, Minas Gerais, Sergipe e outros estados que apresentam crescimento na taxa de homicídios compõem o contexto nacional, refletindo a forte tendência de receber a violência de fora. Alagoas é o estado mais violento no momento”.



