sexta-feira, março 09, 2012

A lei do mínimo esforço

Carlos Brickmann, Observatório da Imprensa

Tem gente na praça que lê a notícia no jornal, escuta a notícia no rádio, vê a notícia na TV, lê a mesma notícia em dezenas de portais de Internet, e em seguida manda e-mails mais ou menos nos seguintes termos: "Por que a imprensa não conta essa história?" Certa vez, um leitor cansou de protestar contra o silêncio dos meios de comunicação com relação a Tomaz, filho de Fernando Henrique. Havia mais de um milhão de citações no Google, apenas em um verbete. Mas ele achava pouco. Que é que se há de fazer?

Mas, muitas vezes, esse pessoal tem razão, ao menos em parte. Sabemos que, após prolongadas férias, que só terminaram depois do Carnaval, quatro senadores arranjaram compromissos internacionais por nossa conta, para ficar mais algum tempo, sempre por nossa conta, recebendo sem trabalhar. Um parlamentar foi a Boston, para um evento de economistas (não, não é economista, nem fez administração de empresas, nada semelhante). Três outros foram encontrar-se com parlamentares tchecos em Praga, para trocar ideias com seus colegas de lá. A imprensa noticiou, sem muito destaque, mas noticiou. 

Só falta agora acompanhar a notícia: pedir aos gazeteiros oficiais que informem como transcorreu sua missão. Fazer a velha e boa reportagem. Este colunista é capaz de comer o mesmo cardápio do José Serra, com todos os diets, lights, integrais e folhas que o mantêm com aquela aparência saudável, se algum dos flanantes souber enfrentar um bom repórter e apresentar um resultado plausível da missão internacional que o contribuinte pagou. 

Aprazível, com certeza o resultado foi.

O exemplo Tiririca
Quem fez o levantamento foi Ilimar Franco, em O Globo. Vale transcrevê-lo:

"Com a ida do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) para o Ministério da Pesca, o Senado terá 14 suplentes no exercício do mandato, ou seja, 17% dos senadores não receberam nenhum voto."

Falaram tanto do Tiririca - e, no entanto, Tiririca chegou ao Congresso carregado por votos populares. Goste-se dele ou não, o eleitor o escolheu. 

O número de senadores sem voto (escolhidos para a suplência por sua capacidade, honradez, muito trabalho em favor do Brasil - claro: você seria capaz de imaginar que o suplente seria escolhido por motivos menos nobres?) já é aproximadamente a metade dos biônicos do regime militar, que o presidente Geisel chamava de "democracia relativa". Não falta muito para que o Brasil, tantos anos depois, festeje mudanças tão grandes que equivalham a um giro de 360 graus.

Quem anuncia se esconde
Uma próspera fabricante de cervejas, que foi capaz de comprar uma gigante como a Anheuser-Busch, fabricante da Budweiser, que é capaz de negociar a aquisição de um mamute chinês da área, decide patrocinar um evento em que os maus-tratos a animais fazem parte da cena (nos rodeios e assemelhados, o touro, para entrar corcoveando na arena, tem os testículos bruscamente apertados e puxados por uma corda, chamada sedém). 

Pior: sob o silêncio da imprensa, a Brahma conseguiu incentivos da Lei Rouanet para promover o espetáculo bárbaro. Mas iriam os meios de comunicação desafiar um anunciante para proteger animais e exigir que os promotores da festa selvagem ao menos gastem seu próprio dinheiro, não o nosso? 

Não, até agora não foram. Mas há consumidores de notícias que não se conformam com isso. Aqui, por exemplo, quem fala é Sandra Pontes, indignada - e com razão - com a demonstração da empresa de insensibilidade social e de preocupação zero com o bem-estar dos animais:

"A respeito da nota sobre a Brahma (Mamãe eu quero), gostaria de manifestar claramente minha postura contra esta empresa que patrocina as vaquejadas de Barretos, um espetáculo deprimente, que apenas satisfaz o sadismo daqueles que gostam de assistir a torturas de animais. Há muito que sistematicamente boicoto a cerveja. Prefiro tomar água de torneira a comprar um produto desta empresa".

O silêncio é de ouro
Quando o Wikileaks, portal de Julian Assange, publicou matérias a respeito de conversas de jornalistas brasileiros com diplomatas estrangeiros, deu um tremendo escândalo: os jornalistas foram chamados até de espiões. Agora, que o mesmo portal Wikileaks divulga matérias sobre propinas na compra de armamento francês, a notícia morre no primeiro dia. Assange virou mentiroso de uma hora para outra? Será que ele só fala a verdade em determinados momentos, e em outros desanda a mentir por todos os dentes?

Sandro Vaia, jornalista polêmico, legítimo pig (ele e toda a família são porcos roxos, torcem para o Palmeiras), escreveu um artigo que merece ser lido. E que vai dar briga.

Os exageros
A morte de Eliana Tranchesi, que dirigiu a Daslu no seu auge, provocou algumas reações exageradas. Eliana foi presa sob acusação de crime de colarinho branco, no Governo Lula; e aí surgiram as versões de que foi Lula quem matou Eliana. Não, certamente não foi: mesmo que a doença que a matou tivesse surgido em consequência da prisão, não seria culpa do Governo, cuja obrigação é fazer cumprir a lei. E, a propósito, não foi o Governo que mandou prendê-la: foi a Justiça, a pedido de um promotor.

No caso de Eliana Tranchesi, há duas restrições sérias ao modo pelo qual foi tratada: primeiro, não havia motivo para usar trinta homens com armas longas na sua prisão. Sendo quem era, uma empresária de sucesso, sendo seu advogado quem era, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, do maior prestígio e respeitabilidade, bastaria um telefonema para ele para que apresentasse imediatamente sua cliente. Se achassem necessário mandar alguém armado buscá-la, um homem com revólver seria mais do que suficiente: as vendedoras da Daslu não atirariam araras de roupa nos invasores, nem lingerie de grife, para resistir à prisão da proprietária. Houve indiscutível uso de excesso de força.

A segunda restrição é quanto à pena. Não tem sentido condenar uma pessoa por crimes fiscais a penas tão graves quanto por homicídio. E a pena de Eliana Tranchesi foi semelhante à aplicada ao rapaz que assassinou a namorada e baleou outra jovem, depois de mantê-las por dias em cárcere privado. A gravidade das penas deve ser proporcional à gravidade do crime. 

Não podemos esquecer aquela anedota que tanto circulou nos meios jurídicos: se um cavalheiro se prepara para atirar numa capivara e surge um fiscal do Ibama, é melhor matar o fiscal do Ibama, porque no caso o crime é afiançável.

OK, agora podem vir as teses segundo as quais o criminoso de colarinho branco é mais perigoso que o assassino, porque ao apoderar-se de dinheiro público reduz a quantidade de creches e hospitais e, portanto, contribui para o aumento da mortalidade. São teses interessantes e vale discuti-las - até porque só no Brasil o homicídio é um crime menos grave que os outros.