quarta-feira, julho 18, 2012

‘Estamos virando uma colônia europeia africana’, diz Eliezer Batista


Henrique Gomes Batista
O Globo

Eliezer Batista critica exportações do país e defende negócios do filho

O ex-ministro e fundador da Vale Eliezer Batista criticou nesta segunda-feira, durante as comemorações pelo 203º aniversário da Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), a situação da economia brasileira. Segundo ele, o país erra em não ter uma postura mais agressiva na exportação de produtos industrializados:

— Eu vejo (essa elevada participação de produtos básicos nas exportações) como algo muito mau, nós estamos virando uma colônia europeia africana do século passado. E sem agregar valor você não cria empregos de qualidade.

Ele disse que o Brasil precisa copiar o modelo coreano para se desenvolver com inovação. Aos 88 anos, Eliezer afirmou que hoje no Brasil se fala muito em educação, mas pouco se faz para elevar a qualidade dos docentes no país. E criticou a falta de conhecimento aprofundado:

— Olha essa discussão do Código Florestal. Muitos lutam sem conhecer a Amazônia, não há um estudo sério sobre a floresta. É a luta pela luta, com boa intenção, mas sem conhecimento científico.

Eliezer disse que o país precisa de mais ordem e civismo, além de uma transformação cultural, e lembrou que os grandes projetos do país em infraestrutura, como a exploração de petróleo em Macaé, a construção de Brasília e as grandes hidrelétricas, foram responsáveis por uma elevada favelização em seus entornos.

O fundador da Vale afirmou, contudo, que nos empreendimentos da EBX — grupo de seu filho, Eike Batista, e da qual participa do Conselho de Administração — têm outra visão e não haverá favelização em suas frentes, como a construção do Superporto de Açu, em São João da Barra.

Eliezer também defendeu os negócios do filho na área de petróleo. Segundo o engenheiro, o mercado financeiro está sendo “exagerado e injusto” com a empresa. Os papéis da EBX caíram muito nas últimas semanas, depois que a empresa enfrentou dificuldades para explorar petróleo no litoral Norte do Rio.

— A reação do mercado foi muito exagerada. Exagerada e injusta. Uma firma que está no processo de produção. Dar um tratamento injusto a uma companhia brasileira é, no mínimo, falta de civismo — afirmou, lembrando ainda que a EBX não vive uma onda de otimismo exagerado e que todo operador de petróleo encontra obstáculos que não estavam previstos.

— Está tudo no começo, o petróleo está lá e vai ser retirado — completou Eliezer, dizendo tratar-se apenas de um problema técnico.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
A declaração do ex-ministro Eliezer Batista até pode ser forte, mas representa um sentimento que vai tomando conta do empresariado brasileiro, insatisfeito e desesperançoso com os rumos da economia brasileira, principalmente, pela inoperância do governo Dilma em tomar medidas de maior impacto para resolver problemas estruturais que afetam o desenvolvimento do país.

É visível que o tal arsenal de que tanto se gaba o ministro Mantega, é na verdade, um amontoado de medidas improvisadas, de pouco ou nenhum efeito, que procura produzir resultados de curtíssimo prazo, sem atentar que o governo brasileiro se tornou, atualmente, o maior obstáculo ao crescimento econômico do Brasil. 

Assim, este sentimento de insatisfação vai se espalhando e tirando a confiança do empresariado em relação ao governo Dilma. Se repararmos bem, a presidente já completou um ano e meio no poder, portanto, quase meio mandato, e até agora não apresentou sequer um plano de reformas ou um projeto de país. Tudo é feito com imediatismo, com improvisação, visando atender ou os apetites dos políticos da base, ou para corrigir situações emergenciais.

Quem de fato investe em produção enfrenta, por conseguinte, um ambiente degenerado de negócios e acaba se retraindo. O país está estagnado, não se consegue avançar em questões fundamentais, esta burocracia estúpida que o Poder Público criou impede que novas e grandes empresas se instalem. Olhem o Orçamento aprovado pelo Congresso: num país em que a média de crescimento real da arrecadação é superior à própria inflação, o pífio acréscimo de 3 bilhões em investimentos desamina qualquer um. Os gastos com máquinas, neste primeiro semestre foi superior ao investimentos, e não há sinais no horizonte de que este cenário vá mudar. Pergunto: era "tudo" isso que dona Dilma tinha para oferecer ao país? Se for, perdoe-me presidente, mas é pouco, é muito para um país como o Brasil.