quarta-feira, julho 18, 2012

O Pibinho e as criancinhas

Clóvis Rossi 
Folha de São Paulo

Concordo inteiramente com a presidente Dilma Rousseff quando ela diz que um país deve ser medido não pelo seu PIB (Produto Interno Bruto, medida de tudo o que produz), mas pelo que faz "para suas crianças e adolescentes".

Pena que, medido por esse metro, o Brasil seja um dos mais redondos fracassos da história.

Começa pela vergonhosa 87ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, absurdamente incompatível com a muito cacarejada sexta colocação no ranking de PIBs.

Desnecessário lembrar que o IDH, como pede Dilma, mede riquezas (em educação e saúde, por exemplo) que vão muito além da riqueza física. Aliás, sempre que saem ranking globais na área social, o Brasil passa vergonha.

Espicaçado pelo metro desejado pela presidente, fui comparar alguns indicadores específicos para crianças/adolescentes. Utilizei, para ganhar tempo, um aplicativo para IPad que lista "Indicadores Globais de Desenvolvimento" e permite comparações com outros países, quase todos os do mundo.

Desprezei as comparações com países desenvolvidos nas quais o Brasil leva uma surra de dar vergonha, como todo mundo sabe. Procurei apenas os vizinhos, cujos PIBs são bem inferiores ao do Brasil.

Exemplo talvez mais gritante: o Chile, cujo PIB é um décimo do brasileiro. Não obstante, uma criança que nasça no Chile tem a expectativa de viver 79 anos, ao passo que no Brasil a expectativa fica em 73 anos.

Pulemos para desnutrição: no Chile, apenas 0,5% das crianças abaixo de cinco anos estão com peso abaixo do normal. No Brasil, a porcentagem é quatro vezes maior (2,2%).

Um dos grandes fatores de pobreza e marginalização social, como todo mundo sabe, é a porcentagem de adolescentes (15 a 19 anos) que têm filhos, em geral mães solteiras. No Brasil, 76 de cada mil adolescentes nessa faixa etária têm filho, número que cai para apenas 57 no Chile.

O desnível se dá também no consumo: os 20% mais pobres entre os chilenos respondem por 4,3% do consumo do país. No Brasil, essa camada social consome apenas 2,8% do total. Aliás, até no Paraguai, os 20% mais pobres consomem mais do que seus parceiros brasileiros de miséria.

Depois de olhar os números do Chile, até desisti de comparar o Brasil com a segunda economia da América do Sul, a da Argentina.

Mesmo tendo passado, no período 1999/2002, por uma retração econômica desconhecida em qualquer país em tempos de paz, os indicadores argentinos superam com folga os do Brasil.

Portanto, cara presidente, ou o Brasil volta a usar o metro do PIB, com o que continuará sendo emergente, ou você terá muito trabalho para tirar o país do fundão do mundo em matéria de indicadores sociais.

****** COMENTANDO A NOTICIA:
Excelente texto para Dilma Rousseff ler e refletir todas as noites e se perguntar: onde foi que eu errei?