terça-feira, julho 24, 2012

Palavras, nada mais do que palavras


Adelson Elias Vasconcellos


Por duas vezes, em Brasília e depois na Bahia, dona Dilma subiu nas tamancas para tentar desviar a atenção da opinião pública sobre o pibinho divulgado pelo Banco Central. Primeiro, atropelou os conceitos econômicos ao tentar colocar o PIB como indicador de segunda importância. Aí vieram as promessas. Que beleza seria o Brasil se dependesse apenas das promessas de seus políticos, mormente os petistas. Porém, país algum se faz com papo furado.

Continuo inflexível no meu princípio de avaliação de um governante: o que importa são os resultados, mesmo que eles aconteçam no médio e longo prazos.. Discurso, propaganda, papo furado, solenidades e cerimoniais de alto luxo, isto nada me encanta. Valerão sempre os resultados que a ação do governante puder provocar em benefício da população. O resto, nem resto é, é nada vezes nada.

Comecemos então por Brasília. Lá, Dilma afirmou categoricamente que uma grande nação não se mede pelo PIB.  Em verdade, sem crescimento, e o PIB é o indicador de crescimento, sem ele  como poderemos alcançar bem estar social? Chega ser irritante discurso feito de ocasião, vazio em conteúdo, e demagógico na forma. Dilma sendo economista sabe que seu “conceito” revolucionário é só batatada. 
Mas dona Dilma achou que era pouco, e mandou ver numa prosopopeia impressionante que, não fosse nossa memória e os registros que ficam gravados na imprensa, a gente até se comoveria com o discurso. Disse a soberana: "Uma grande nação deve ser medida por aquilo que faz para as suas crianças e adolescentes, não é o PIB, é a capacidade de o País, do governo e da sociedade de proteger o seu presente e o seu futuro"

Dona Dilma prometeu na campanha eleitoral muita coisa. Vamos recuperar a memória e reavivar as tais promessas. Era compromisso assumido a construção de 5.000 creches. Para 2011, eram objetivos de governo:

- 3.288 quadras esportivas em escolas;
- 1.695 creches;
- 723 postos de policiamento comunitário;
- 2.174 Unidades Básicas de Saúde;
- 125 UPAs.

Pergunto: do prometido, o que fato dona Dilma realizou? Fica fácil para a presidente afirmar, diante de uma plateia surda, muda e, pelo jeito, burra,  que "O Brasil durante muito tempo conviveu com uma situação lamentável e terrível, ser um país com tantas riquezas, formado por um povo tão solidário, mas que uma parte imensa da sua população estava afastada dos direitos e, sobretudo, dos benefícios dessas riquezas e de tudo que esse país pode produzir". 

Ignoremos a quem ela se referiu, porque o que importa é saber se Dilma foi eleita para governar o passado ou o presente, abrindo caminho para um futuro melhor? Ficar transferindo responsabilidades, ou caçando bruxas, não vai levá-la a nada, a menos que, ao término do mandato, vá trabalhar num museu. 

Contudo, cadê a coerência, dado que a própria presidente prometeu atender as crianças e jovens, e após 1 ano e meio de governo, a presidente só lançou programas a esmo, com zero vezes zero de realizações. Depois, resolveu aumentar a promessa de meses atrás, que era construir cerca de 30 mil escolas em tempo integral. Na época comentei que se conseguisse realizar 10% do prometido, já seria um feito e tanto. Agora, passados alguns meses, e sem sequer ter realizado nada do que prometera, resolveu dobrar a aposta. Passou de 30 para 60 mil escolas, com tempo integral..Por acaso a presidente sabe o que é necessário para uma escola funcionar em período integral? Sabe o quanto isto envolve não apenas de condições materiais, mas de pessoal humano, de logística, etc.?

São estas fantasias que a presidente precisaria estar atenta. Promessa vazia não tira o país do buraco, do atraso educacional em que se encontra, não torna os serviços públicos melhores, nem reduzirá os índices de criminalidade que, aliás, sob o império petista, não param de crescer, afetando principalmente os jovens... Pergunto: tem o governo federal condições de colocar pelo menos dez, vejam como sou modesto, repito, tem condições de colocar ao menos dez escolas públicas federais em condições de “tempo integral”? Nem precisa responder.

Em frente. Arrematou, ainda, isto: "Lugar de criança e adolescente é na creche e na escola, num ambiente seguro, é nas escolas técnicas, é nos campos esportivos, é em todas as manifestações artísticas, é sobretudo em um ambiente seguro, livre da miséria, da violência e dos abusos." Pergunto, alguém é débil mental a ponto de afirmar o contrário?  

Voltemos às indagações: quantas creches o governo federal já entregou do lote prometido durante a campanha eleitoral? Quantas quadras poliesportivas? Quanto à segurança, dona Dilma, já se foi o tempo em que escola era um local em que se podia deixar um filho com toda a segurança. Diariamente as páginas policiais são invadidas pelos atos de violência – afora as drogas  - que acontecem nas escolas. Portanto, um pouco de senso de realidade não lhe faria nada mal.

Viajemos até a Bahia. Lá, em outra solenidade, a presidente destacou:” . "Vamos transformar a crise em oportunidade para melhorar as condições de nosso país de produzir, crescer e distribuir renda". Ótimo, é isto mesmo que o país espera que sua governante faça. 

A presidente também enfatizou que a sexta economia do mundo não cortará nenhum direito trabalhista, reforçará as medidas de estímulo e evitará que a moeda brasileira se aprecie em relação ao dólar, de modo a proteger a indústria – setor mais atingido pela crise. Dilma elogiou ainda a decisão do Banco Central de levar a taxa básica de juros (Selic) para o patamar mínimo da história brasileira, de 8% ao ano. Merece ler louvada com muitas palmas. Puxa saco nesta hora nunca falta. Levantando a bola para marcar gol de letra, acrescentou a presidente:

"O Brasil está em outro caminho, o nosso caminho não é igual ao deles (países desenvolvidos)", afirmou. Sem dúvida nosso caminho é “outro”. Tirando os países quebrados, Grécia, Espanha, Itália e Portugal, provavelmente nosso PIB neste ano crescerá menos que os demais. É um caminho diferente, sem dúvida, mas bem tortuoso. Ora o Brasil não está nem próximo da crise que assola as economias europeias, por que seu PIB não consegue sair do lugar? Por que nossa economia corre o risco de fechar um ano na estagnação? Sem dúvida, são caminhos muito diferentes.

Mas a parte mais interessante do discurso foi esta aqui: “Ela também destacou que o Brasil vive uma realidade "nunca antes vista" e citou medidas do governo, como redução de juros e uma taxa de câmbio que impede que a indústria seja sucateada, além de indicar a perspectiva de redução de imposto cada vez mais.

Primeiro, a taxa de câmbio é derivada da própria crise. As multinacionais instaladas aqui tem enviado cada vez mais dólares para cobrir os prejuízos de suas matrizes. Portanto, é uma ação que não depende do governo. Segundo, a questão cambial só começou a ser tratada com a devida importância a partir da pressão das empresas, principalmente indústrias, em razão da desindustrialização ter crescido perigosamente, com seguidos índices negativos na atividade industrial. Ou seja, foi preciso o paciente entrar na UTI para o governo agir. E o câmbio só melhorou um pouquinho por conta da redução da SELIC,cujo único beneficiado até aqui tem sido o próprio governo, uma vez que isto influencia diretamente a dívida interna. O cidadão comum continua pagando juros altos e onde estes juros de fato se reduziram, os bancos buscaram a compensação com a brutal elevação das tarifas. 

Quanto a redução de impostos, a presidente poderia ao menos ter sido um pouquinho sincera. Nesta semana, o impostômetro chegou aos 800 bilhões onze dias antes do que havia chegado em 2011. Onde o governo baixou impostos, buscou compensar com a elevação em outras atividades, bebidas e cigarros, por exemplo, além do IOF. Como a redução de IPI foi seletiva, beneficiando apenas aos clientes, correntistas e doadores do partido, mas sem perda de arrecadação, então a presidente mentiu ao falar em redução de impostos. Até porque o crescimento real da arrecadação de tributos continua superando a inflação  e o crescimento do PIB, o que indica que não houve redução de impostos coisíssima nenhuma.Houve elevação da carga, isto sim.

Não sei se os discursos da presidente são escritos por ela mesma, ou são puro improviso, ou é algum assessor que lhe prepara a fala. De uma coisa eu sei: ele não resiste a uma avaliação superficial do que se diz em contraste brutal com a realidade. 

A questão é que, sendo presidente, mulher e petista não se concede com tais “predicados” salvo conduto para a mistificação. O presidencialismo no Brasil tem uma forte presença junto à  população. E o mínimo que se pode esperar é que esta credibilidade não seja usurpada com desinformações e mentiras. O povo não merece, aliás, ninguém merece.