domingo, julho 29, 2012

Situação de vaca não conhecer bezerro


Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa

Primeiro foi Marcos Valério,  ameaçando o  Lula ao dizer que conversou com ele diversas vezes, apesar dos desmentidos do ex-presidente. Depois, quer dizer, terça-feira, o operador do mensalão negou  tudo, afirmando que não  é   dedo-duro. Não é mas foi, presumindo-se que  terá obtido  compensações nos diálogos com Paulo Okamoto, representante do Lula.

Agora, quem vai para o centro do palco é Roberto Jefferson, aquele que pela primeira vez  denunciou o mensalão, então isentando o Lula de qualquer  participação e carregando acusações em José Dirceu. Pois da noite para o dia o ex-deputado cassado, ainda presidente do PTB, volta em 180 graus  suas baterias,  denunciando que além de saber de tudo, o ex-presidente era o verdadeiro chefe, tendo  ordenado  a operação de compra do voto de deputados por 30 mil reais mensais a cabeça.

Assim estamos a poucos dias do inicio do julgamento dos mensaleiros pelo Supremo Tribunal Federal, não constituindo surpresa se de ontem para hoje novos acusados  tiverem escoado para a mídia mais contradições, denúncias e desmentidos. Na verdade, estão todos apavorados com a perspectiva de condenações. São 38, ao todo, entre estrelas de primeira grandeza e penduricalhos de pouca significação. Assusta-os a possibilidade de saírem do plenário da mais alta corte nacional de justiça diretamente para  uma cela nas instalações da Polícia Federal, condenados sabe-se lá a quantos anos de cadeia.

Seus  advogados  não se entendem, se um dia já se entenderam. De acordo com a lógica, trabalham para livrar o seu cliente, ainda que às custas do vizinho do lado.  Não há hipótese de o  Lula ser transformado em parte no processo.  A tentativa  foi rejeitada por decisão do ministro-relator do processo, Joaquim Barbosa.  Coisa que não impede de  respingarem sobre o ex-presidente pedacinhos de barro jogados no ventilador por parte de alguns mensaleiros.

Faltando sete dias para o início do julgamento, é natural que a cada dia surjam mentiras e  verdades envolvendo um dos maiores  escândalos da  crônica da República, o primeiro, por sinal, a ser conduzido à transparência do Poder Judiciário. A situação, para os indigitados réus, está de vaca não conhecer bezerro... 

O amargo retorno
A presidente Dilma volta ao Brasil no domingo. Está na Inglaterra desde ontem, para acompanhar as cerimônias de abertura das Olimpíadas, com direito até a tomar chá com a Rainha. Oito  ministros a acompanham, entre votos para que venhamos a conquistar algumas medalhas de ouro.

O diabo está no amargo retorno, com a necessidade de o governo agir, ou ao menos pronunciar-se, sobre a denúncia de que 520 bilhões de dólares brasileiros encontram-se nos paraísos fiscais, sem pagar impostos e rendendo horrores para seus proprietários. A equipe econômica não sabe o que fazer.
Mas tem mais. Dilma precisará administrar as disputas entre partidos de sua base,  nas eleições municipais de outubro.  Mesmo ajudada pelo Lula, só a ela caberão certas definições de governo. Acresce que o desemprego vem crescendo, enquanto o PIB diminui. A criminalidade e a violência multiplicam-se,  assim como as greves no serviço público permanecem inconclusas. O Congresso reabre na próxima semana, com deputados e senadores carregados de reclamos colhidos em suas bases. E ainda por cima o preço do tomate aumentou 230%. Não fosse sua natureza forte, Dilma teria decidido ficar em Londres até o fim das Olimpíadas.

A pomba bêbada
Empolgou o país a imagem de uma pombinha branca pousada no esquife de D. Eugênio Salles, quando de seu enterro na Catedral do Rio de Janeiro. Eram coisas do céu, mesmo sem a necessidade de exaltação   maior da imagem do saudoso prelado. Pois agora o repórter Carlos Newton revela que a pomba não veio voando do paraíso. Foi  arremessada a poucos metros do altar, sobre o caixão do cardeal,  por um mais do que solícito cristão que entrou no templo com ela no bolso. Pior ainda: a ave estava bêbada, quer dizer, havia sido forçada a ingerir cachaça para não poder movimentar-se nem bater asas naturalmente. É claro que  artifício tão  pueril em nada ofusca a obra e a memória de D. Eugênio, mas  encenações  como essa carecem de grandeza.

Não será tão fácil assim
 Não há nada a opor à pretensão do senador Renan Calheiros de voltar a presidir o   Senado. Pertence à velha guarda do PMDB, a maior bancada, conta com o apoio dos companheiros do PT e de outros partidos da base oficial e não contrariará,  propriamente, os desejos da presidente Dilma. Afinal, era apenas no tempo dos generais-presidentes que as escolhas se faziam no palácio do Planalto. Mesmo assim, como bissextamente se ouve nos corredores vazios do Congresso, a chefe do governo preferiria Edison Lobão no comando do Senado. Por causa disso...