O Globo
Especialistas citam prazo curto, pouca cobertura e preço dos aparelhos como barreiras à nova tecnologia
BLOMBERG / JONANTHAN ALCOM
Com velocidade estimada entre 10 e 20 vezes maior que a atual,
tablets e smartphones poderão ser usados para streaming de vídeos, videoconferência e jogos
RIO - Seguindo o cronograma da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a rede de telefonia 4G deverá ser inaugurada no país em abril de 2013 nas seis cidades-sede da Copa das Confederações: Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife e Salvador. Apesar da promessa de acesso à internet com velocidade de até 100 Mbps, especialistas veem a novidade com cautela e advertem sobre os desafios para a adoção da tecnologia. O pouco tempo de prazo para a instalação, a possível falta de cobertura e o alto preço dos aparelhos terminais são as principais preocupações.
— Durante os primeiros anos, vai ser para “inglês ver”. Depois, quando os smartphones baratearem, as operadoras aumentarem a cobertura e suas bases de usuários, o 4G vai ter função efetiva — avalia Eduardo Tude, sócio da consultoria Teleco.
No início, a rede vai utilizar a frequência de 2,5 GHz (gigahertz), licitada em junho deste ano pelo valor total de R$ 2,930 bilhões. Essa faixa é pouco utilizada no mundo, o que dificulta a importação e aumenta o preço final de modens, smartphones e tablets. O governo pretende licitar a frequência de 700 MHz (megahertz) para a banda larga móvel — adotada nos EUA e no Canadá —, mas o espaço é ocupado pelo sinal analógico das emissoras de televisão. Na semana passada, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, criou polêmica ao afirmar que a licitação do espectro, prevista para 2016, poderia ser antecipada para 2013 (veja quadro abaixo).
Além de pressionar o valor dos aparelhos, a frequência de 2,5 GHz exige maior investimento das operadoras. Segundo Jorge Monteiro, presidente da Superfones e especialista no mercado de telefonia, o espectro tem alcance e penetração menores que o utilizado pela rede 3G. Por isso, será necessário instalar mais antenas para criar uma cobertura semelhante à atual.
— O grande desafio será a infraestrutura da rede. Com a frequência de 2,5 GHz, ela vai precisar de mais sites. Se a faixa de 700 MHz pudesse ser utilizada, ajudaria na cobertura – explica Monteiro, dizendo ainda que a adoção da tecnologia é prematura e foi acelerada apenas para os grande eventos que o país sediará nos próximos anos. — A rede 3G é subutilizada, ela ainda não alcançou a sua plena capacidade. Quando lançarem o 4G, ele vai demorar a pegar.
O diretor-executivo do Sindicato Nacional das Empresas de Telefonia e de Serviço Móvel Celular (Sinditelebrasil), Eduardo Levy, calcula que as operadoras terão ao menos que dobrar o número de antenas existentes para a instalação do 4G. Segundo a entidade, apesar do curto tempo para o lançamento, as teles estão prontas para a ampliação da infraestrutura, mas esbarram na obtenção de licenças para as obras.
— As empresas estão se preparando. O maior entrave não é do fornecedor, mas de se conseguir licenças. Além da questão burocrática, existe a dificuldade do grande número de exigências que muitas vezes não têm um aspecto técnico — critica Levy.
O diretor para América Latina e Caribe da 4G Americas, Erasmo Rojas, prevê que no início das operações o 4G ainda não estará em pleno funcionamento, mas a demanda de tráfego não será tão alta.
— Serve como experiência, mas a prova real será a Copa de 2014 — diz.
Para cobrir os eventuais buracos na rede, Rojas propõe que as operadoras invistam na melhoria do serviço 3G com tecnologias mais recentes, como o HSPA Plus, que permite a transmissão de dados em até 12 Mbps. Esse é o caminho adotado pela Vivo. De acordo com o diretor-executivo de planejamento e tecnologia da companhia, Leonardo Capdeville, a empresa já fez o upgrade para o 3G plus em toda a sua rede.
— No início, o 4G não vai ter a mesma cobertura das redes existentes e o cliente não pode cair do topo da tecnologia para o 2G. Nos nossos testes, quando o usuário saía do 4G para o 3G, mantinha uma qualidade de serviços aceitável — explica Capdeville.
Atentas às preocupações do mercado, as operadoras estão confiantes de que estarão prontas dentro do prazo e prometem um serviço de qualidade. A Claro, por exemplo, anunciou recentemente o início dos testes com a nova tecnologia nas cidades de Campos do Jordão (SP), Parati e Búzios (RJ). A Vivo e a Oi já realizaram os seus durante a Rio+20, em junho deste ano. Sobre o preço dos aparelhos, as companhias veem com naturalidade o alto custo inicial.
— Existe uma curva natural no preço dos aparelhos. Isso aconteceu com o CDMA, depois com o GSM, o 3G e vai acontecer com o 4G. Mas o que a gente observa é que esse tempo é muito rápido e existe um número grande de early adopters, que adquirem a tecnologia logo após o lançamento — explica Gabriela Derenne, diretora regional da Claro para RJ e ES.
Teles enfrentam prazo curto
As teles terão que correr contra o tempo. Apesar de o leilão ter sido realizado em junho, os contratos da licitação ainda não foram assinados, nem os equipamentos homologados. Em abril, as operadoras terão que atender seis centros urbanos que, somados, possuem mais de 18 milhões de habitantes, número maior que a população do Chile. O diretor do projeto 4G da Oi, Carlos Eduardo Monteiro, prevê que o sistema estará pronto dentro do prazo, mas teme pela disponibilidade de células no mercado.
— A maioria dos equipamentos é importada e, no mundo, existe capacidade fabril para atender esse volume de demanda. A questão é o tempo de entrega — diz.
Para melhor atender essa demanda, as fornecedoras estão buscando nacionalizar a produção. A Nokia Siemens, por exemplo, investiu cerca de R$ 5 milhões para iniciar uma parceria local. A previsão é começar as entregas entre outubro e dezembro deste ano.
