quinta-feira, agosto 02, 2012

Resultado frustrante da indústria reforça pessimismo, dizem analistas


Maria Regina Silva e Denise Abarca
Agência Estado

Produção industrial cresceu 0,2% em junho ante maio e teve queda de 5,5% em relação a junho de 2011, segundo IBGE 

SÃO PAULO - O resultado da produção industrial em junho, sobretudo na margem, foi decepcionante e as expectativas para o setor nos próximos meses não são animadoras, na avaliação dos analistas do mercado financeiro. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve crescimento de 0,20% em junho ante maio e queda de 5,50% em relação a junho de 2011. Pesquisa realizada pelo AE Projeções mostrava que o intervalo das estimativas para o dado na comparação mensal ia de avanço de 0,30% a 1,70%, com mediana de 0,80%. No confronto com o sexto mês do ano passado, as previsões apontavam uma queda de 3,20% a 5,30%, com mediana negativa de 4,50%.

"A produção industrial decepcionou mais uma vez e aponta para um segundo trimestre fraco da economia. Indica que a retomada ainda não aconteceu e que teremos um crescimento próximo do visto no primeiro trimestre", avaliou em entrevista à Agência Estado o estrategista-chefe do Banco WestLB do Brasil, Luciano Rostagno, que esperava um avanço de 0,90% na margem e um recuo de 4,30% na comparação com junho de 2011. Entre os meses de janeiro a março, o Produto Interno Bruto (PIB) teve expansão de 0,20%, de acordo com o IBGE.

Rostagno observou que não é apenas o setor automotivo que está impedindo a atividade de deslanchar, apesar de ter esboçado uma recuperação em junho. Segundo o IBGE, a produção de veículos automotores teve alta de 3% na margem. Em contrapartida, bens intermediários tiveram queda de 0,90% frente a maio. "O setor de bens intermediários acabou por comprometer o resultado de junho, indicando que o fraco momento da indústria está mais disseminado. Não é só o setor automotivo que está com dificuldade de se recuperar, mas outros também estão", disse.

O economista afirmou não estar muito otimista quanto a uma recuperação significativa da atividade no segundo semestre. "Se a retomada acontecer, será gradual", disse. De acordo com ele, como a situação difícil está "disseminada", fica mais complicado atacar o problema. "Percebemos que está se instaurando um cenário mais pessimista na indústria, desencadeado com o setor automotivo", avaliou.

Os dados da produção industrial, segundo Rostagno, reforçam a expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) poderá promover mais um corte de 0,50 ponto porcentual na taxa de juro básico (Selic) na reunião de agosto, com a taxa passando para 7,50%. Depois, disse, as decisões ficarão na dependência do ambiente internacional. "O cenário externo é chave nesse contexto", afirmou.

O estrategista do WestLB também disse que, se o Banco Central Europeu (BCE)) e o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) trouxerem boas notícias, como uma nova rodada de afrouxamento quantitativo, no caso do Fed, e medidas para conter a crise na Europa, caso do BCE, os mercados ficarão otimistas, o que deve favorecer uma retomada um pouco mais rápida da atividade doméstica. "E o governo poderá ficar mais seguro de que a indústria vai se recuperar no segundo semestre. Por enquanto, sem esse sinal, pode ser que o BC não decida interromper o ciclo de baixa dos juros", estimou.

O resultado bem mais fraco que o esperado da indústria mostra que as medidas de estímulo que o governo tem adotado nos últimos meses não têm surtido o efeito desejado, avalia a economista-chefe da Mapfre Investimentos, Helena Veronese, que previa crescimento de 0,6% para a produção na margem. "Mesmo com as medidas de estímulo, a produção não se fortaleceu e o resultado deste mês foi positivo (ainda que pouco) basicamente por conta da produção de veículos", disse. Segundo o IBGE, a produção de veículos avançou 3,0% em junho.

De acordo com Helena, a principal explicação para a indústria não estar reagindo às medidas - entre elas os incentivos fiscais e a queda da Selic - "é o fato de a população estar mais endividada hoje do que estava, por exemplo, em 2008, quando medidas parecidas foram tomadas". "Por um lado, temos medidas de incentivo ao consumo, por outro, temos uma população endividada e alavancada", afirmou.

Para julho, a economista ainda não fechou seus números, mas já adianta que as expectativas não são das melhores. "A tendência nos próximos meses é um pouco parecida com junho. A produção crescendo pouco, por conta das medidas de estímulo e do real desvalorizado, mas em termos estruturais (que no longo prazo é o que importa) a indústria segue muito fraca", disse, lembrando que o espaço para medidas adicionais de estímulo está cada vez menor, uma vez que podem começar a colocar em risco a disciplina fiscal. "O problema da indústria é estrutural", afirmou.

Na avaliação do Banco ABC Brasil, o setor industrial apresenta pouco dinamismo e não valida um crescimento econômico sustentável, mesmo apresentando expansão positiva após redução de atividade industrial em três meses consecutivos. "A média móvel trimestral, além do dado acumulado em 12 meses, apresenta queda acentuada na produção, sem tendência à reversão", afirmou a economista Mariana Hauer, em relatório enviado à imprensa e a clientes. Segundo o IBGE, a média móvel trimestral teve queda de 0,4% em junho ante maio, enquanto a produção industrial acumulada em 12 meses até junho recuou 2,3%.