quinta-feira, setembro 13, 2012

Rede Energia: Caixa terá de explicar investimento


Geralda Doca
O Globo

Banco comprou ação de empresa do grupo com FGTS

BRASÍLIA — Integrantes do comitê gestor do FI-FGTS, fundo criado pelo governo para investir recursos do FGTS em infraestrutura, cobraram explicações da Caixa Econômica Federal sobre a aplicação de R$ 600 milhões na holding Empresa de Distribuição de Energia Vale Paranapanema (EEVP), do grupo Rede Energia, que está sob intervenção federal. O negócio, revelado por Ancelmo Gois em sua coluna na semana passada, foi feito em agosto de 2010, quando as concessionárias já enfrentavam sérios problemas financeiros e de gestão.

Mesmo assim, o FI comprou 35,70% da EEVP. Naquele ano, a empresa foi a terceira que mais recebeu dinheiro do Fundo, perdendo apenas para Odebrecht Transp Participações e Foz Brasil S.A, segundo balanço do FI-FGTS.

Segundo interlocutores, o banco, responsável pelas aplicações do FI-FGTS, alegou que exigira garantias fortes para comprar papéis da empresa, porque sabia do risco elevado. Só que as garantias que o FI detém são as ações da EEVP e oito das nove empresas de distribuição de energia do Grupo tiveram intervenção decretada no início deste mês pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). As dívidas das concessionárias somam R$ 5,7 bilhões. A única que ficou de fora foi a Centrais Elétricas do Pará (Celpa), em processo de recuperação judicial e que deverá ser vendida ao grupo Equatorial, que atua no ramo de energia no Maranhão.

Nas explicações ao comitê gestor, a Caixa garantiu que o FI não ficará com o prejuízo porque o banco cobrirá o calote, se houver. Por lei, a rentabilidade mínima do FI é de 6% ao ano, mais TR, mas os resultados têm ficado abaixo do previsto.

Outra justificativa para o mau negócio é que, naquela ocasião, o grupo Rede, com faturamento de R$ 10 bilhões por ano, tinha grande potencial, desde que fosse adotado um plano de estruturação de dívida e medidas de gestão, a fim de tornar as empresas atraentes a um novo investidor. Porém, a situação se deteriorou no ano passado, depois de uma tentativa frustrada do controlador de fazer leilão para vender sua participação.

— A oferta pública não deu certo e a notícia da situação se espalhou. Os bancos fecharam o crédito — lembra uma fonte.

“É importante ressaltar que, tal como todos os ativos investidos pelo FI-FGTS, a operação da EEVP foi cercada de toda a governança e boas práticas de gestão, tendo sido submetida e analisada por diversos comitês, incluindo o Comitê do FI-FGTS — órgão externo à CAIXA — e teve assessoria de empresas independentes que analisaram os aspectos financeiros, legais, técnicos e operacionais”, diz a Caixa, em nota.

Ao decretar a intervenção, a Aneel deu 60 dias para que o acionista controlador (Jorge Queiroz) apresente um plano de recuperação. Mas, segundo fontes, diante da falta de recursos próprios e escassez de crédito nos bancos, o controlador não terá condições de executar esse plano. A alternativa em discussão é a venda total dos ativos. Negociações estão em andamento com duas empresas estrangeiras e uma nacional.

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Lembram do caso Panamericano? Pois bem, eis a Caixa Econômica mais uma vez enrolada em negócios suspeitos. É sempre bom lembrar que ambos ocorreram ao tempo do governo Lula. No caso do banco, mais tarde descobriu milionário rombo que, "alguém" da Caixa, esqueceu de verificar. O mesmo comportamento, como vemos, foi adotado na Caixa, ao conceder vultuoso empréstimo para empresa em dificuldades financeiras. Ora, se o negócio era de alto risco, pergunta-se: quem avalizou a operação? Querem mais uma coincidência? A operação de salvação da canoa furada do Panamericano se deu na mesma campanha eleitoral de 2010 em que a mesma Caixa Federal "socorreu"  a Rede Energia.

Aliás, o uso intensivo de recursos públicos para "ancorar" operações de risco em empesas privadas - o BNDES também realizou operações de igual gênero - é algo criminoso e a sua reincidência revelam um repreensível modelo de gestão.