Raquel Grisotto
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Tirar ideias do papel e colocá-las em prática ainda são um desafio no Brasil, mas o cenário nunca foi tão promissor para as PME’s; distância entre academia e mercado, porém, ainda é um obstáculo
(Thinkstock)
Inovação: conjunção de fatores para desenvolvimento
de produtos e serviços nunca foi tão favorável
Formado em química, com mestrado e doutorado dedicados ao estudo dos polímeros –macromoléculas, muito comuns na indústria do plástico, formadas pela repetição de pequenas e simples unidades químicas –, o carioca Fabio Barcia, de 40 anos, passou boa parte da vida acadêmica fazendo experimentos. Durante esse período, nunca abandonou o sonho de um dia usar seu conhecimento a favor da indústria. Em suas pesquisas de modificação de resinas epóxi, Barcia conseguiu desenvolver um superadesivo capaz de suportar as altas temperaturas das caldeiras siderúrgicas e resistir às condições adversas do fundo do mar. “Tirar minha invenção do laboratório foi uma enorme conquista”, diz Barcia. Hoje, ele é dono da Polinova, empresa especializada em revestimentos e adesivos de alta tecnologia que atende clientes como Gerdau, Votorantim e Petrobras. O faturamento previsto para este ano é de 400 000 reais, mais que o dobro de 2011.
Fábio Barcia,
diretor técnico da empresa Polinova
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Para ir além dos laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde seu negócio ficou incubado por vários anos, o empresário recebeu em 2010 um aporte de 1,5 milhão de reais do Criatec – fundo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que investe em empresas inovadoras em estágio inicial. “Agora, ninguém me segura”, comemora. “Sinto o maior orgulho de ter construído um negócio a partir de algo que criei.”
Histórias como a da Polinova são cada vez mais comuns. O Brasil ainda não pode ser considerado um terreno fértil para inovação, encontrando-se distante da realidade dos países desenvolvidos e até de um grupo de emergentes, como a China. Contudo, nunca foi tão favorável como agora a conjunção de fatores para empreendedores que querem desenvolver produtos e serviços. Eis alguns: aumento da demanda por soluções inovadoras, acesso mais barato a novas tecnologias e recursos em maior volume.
Avanços –
O próprio desenvolvimento econômico abre espaço a quem planejar inovar. “À medida que o país ganha relevância mundial e o consumo interno cresce, é preciso desenvolver novas soluções para diferentes áreas da economia”, diz Carlos Alberto dos Santos, diretor técnico do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). As oportunidades para pequenos e médios empresários venderem suas soluções estão, sobretudo, nos setores de agronegócio, saúde humana e animal, logística, petróleo e gás e finanças (softwares que ajudem a aprimorar as análises de risco de operações de crédito).
O interesse de grandes empresas por serviços inéditos é tamanho que a americana PepsiCo, por exemplo, acabou de lançar um programa para propesctar projetos entre empreendedores no país. “Pequenas empresas têm mais dinamismo para criar coisas novas e são fundamentais para que possamos enfrentar um mercado em constante transformação”, diz Camila Maranezzi, gerente de mídia e relações com consumidores da PepsiCo.
Há também mais dinheiro disponível. No plano Brasil Maior, o governo reforçou suas promessas de apoiar projetos de pesquisa e desenvolvimento (P&D), anunciando crédito para compra de máquinas e equipamentos. Há também novas linhas para PME’s com foco em inovação com juros subsidiados e prazo de pagamento estendido. A essas ações somam-se as linhas de crédito e fundos que já operavam no país com dinheiro público e também o aumento das operações de fundos de capital de risco com foco em negócios emergentes.
Chamados fundos de capital ‘semente’, ou seed, do original, em inglês, esses fundos aportam recursos na empresa durante seu estágio inicial em troca de uma participação acionária – e ajudam a sustentar as pesquisas enquanto o produto não chega ao mercado. “Muitas vezes, apostamos apenas na ideia do empreendedor”, afirma Robert Binder, da Antera, gestora especializada em operações de capital semente. “Até o início da década, praticamente não havia fundos com esse perfil no Brasil, somente operações de private equity, que tem como foco empresas maiores”, explica Binder, que é também coordenador do comitê de empreendedorismo da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap).
Do ponto de vista legal, também houve avanço na última década, principalmente com a sanção da Lei de Inovação Tecnológica (nº 10 973/2004) e da Lei do Bem (nº 11 196/2005). Contudo, os especialistas alertam para o fato de a maior parte dos benefícios não ser eficiente para os empresários de pequeno porte – caso da possibilidade de renúncia fiscal prevista na Lei do Bem para quem investe em pesquisa e desenvolvimento. “Os negócios emergentes, em sua maioria, são adeptos do Simples e não conseguem aproveitar outros tipos de benefícios fiscais”, explica Santos, do Sebrae.
Em 2011, o total de recursos destinados à pesquisa e desenvolvimento alcançou 1,2% do PIB, ou algo próximo a 48 bilhões de reais. A meta é que, em 2014, o montante chegue a 1,8% do PIB, segundo estimativa do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). É um porcentual parecido com o de nações com alto grau de inovação. Só que, diferentemente do que acontece nesses países, a metade do dinheiro aqui vem do governo. “Ampliar a participação da iniciativa privada é de extrema importância para o avanço da inovação no país”, diz José Hernani Filho, sócio da Pieracciani, consultoria especializada no segmento. “Do contrário, os recursos ficam presos nas universidades, com menos chances de se transformar em negócios capazes de gerar riqueza.”
Gargalo –
Atualmente, 70% dos pesquisadores do país estão na academia e apenas 30% na iniciativa privada, segundo o MCTI. Nos países desenvolvidos, a proporção é inversa. Apoiar pesquisas nas universidades, por si só, não é um problema. Mas um gargalo para a inovação pode surgir quando a distância entre academia e mercado torna-se muito grande – como acontece no Brasil. Para ter acesso a algumas linhas de fomento à pesquisa no país, o interessado precisa necessariamente ter vínculo com uma universidade. Além disso, dizem especialistas, muitos editais são desenhados de maneira a exigir do bolsista apenas produção acadêmica, como artigos científicos. “Em geral, as métricas estão erradas porque incentivam apenas a ciência pura e não a aplicada”, afirma Binder, da Abvcap.
O resultado disso pode ser percebido, entre outras coisas, no baixo número de patentes internacionais conquistadas por brasileiros. Um levantamento recente do escritório Montaury Pimenta, Machado & Vieira de Mello, que atua na área de propriedade intelectual, mostrou que, segundo estatísticas da Organização Mundial de Propriedade Intelecutal (Ompi), o total de patentes depositadas no exterior por brasileiros representou apenas 0,3% do total em 2011. A participação da China, por exemplo, chega a 7%.
“O maior desafio tem sido aproximar universidade e iniciativa privada e nós sabemos disso”, diz Álvaro Prata, secretário nacional de inovação do MCTI. “Para transformar invenção em inovação, o papel da indústria é muito importante.”
Uma das ações para tentar superar esse gargalo tem sido fomentar o número de incubadoras e parques tecnólogicos ligados às universidades. Nesses locais, empreendedores têm acesso à infraestrutura e ao conhecimento gerados na academia, ao passo que os pesquisadores ganham orientações sobre realidade de mercado e como estruturar um negócio. É uma troca importante, mas ainda pequena diante dos desafios de colocar o país, definitivamente, no caminho da inovação.
Saiba onde encontrar dinheiro para inovar
Transformar conhecimento em negócio é o sonho de muitos empreendedores. Veja algumas fontes de recursos – entre instituições públicas, entidades privadas e fundos de capital de risco – que podem ajudar micro, pequenas e médias empresas a tirar ideias inovadoras do papel
Criatec II
Fundo de investimento de capital semente – quando há aporte de recursos em troca de participação acionária – do BNDES. É direcionado a empresas nacionais com faturamento de até 10 milhões de reais.
Regras e condições –
A etapa em que as empresas enviam suas propostas será aberta no primeiro semestre de 2013 (www.bndes.gov.br).
No momento, o fundo está em fase de seleção dos gestores. O patrimônio do Criatec II para investimentos será de, no mínimo, 170 milhões de reais, com até 80% de participação do BNDES e aportes do Banco do Nordeste Brasileiro (até 30 milhões de reais), do Banco de Desenvolvimento do Sul (até 10 milhões de reais) e do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (até 10 milhões de reais).
O primeiro fundo Criatec vigorou entre 2007 e 2011, quando foram investidos 100 milhões de reais em 36 empresas.
PSI Inovação
Linhas de financiamento (reembolsável) destinadas a atividades e projetos de inovação em empresas de qualquer porte, bem como para investimentos em engenharia e infraestrutura de empresas dos setores de bens de capital, defesa, automotivo, aeronáutico, aeroespacial, nuclear, de petróleo e gás, químico e petroquímico, além da cadeia de fornecedores das indústrias de petróleo e gás e naval.
Regras e condições –
As propostas podem ser enviadas durante todo o ano por meio do portal do BNDES na internet. A seleção é feita em duas etapas. Na consulta prévia, é avaliado o enquadramento do projeto. Com a aprovação na primeira fase, é aberta a solicitação de financiamento. Nesta etapa, as empresas devem apresentar a análise jurídica e garantias conforme o valor a ser financiado.
Os financiamentos disponíveis partem de um milhão de reais. Para projetos de inovação, a taxa de juros é de 4% ao ano, com carência de até 48 meses e amortização em até 120 meses. Para investimentos em engenharia e infraestrutura, a taxa de juros é de 5,5% ao ano, com carência de até 24 meses e amortização em até 96 meses.
Inova Brasil*
Linhas de financiamento (reembolsável) para empresas brasileiras com faturamento anual acima de 16 milhões de reais.
Regras e condições –
As propostas podem ser enviadas durante todo o ano através do site da Finep e exigem documentos como demonstrativos contábeis e análise de crédito (enviados pelo correio em versão impressa). A seleção é feita em duas etapas. Na consulta prévia, é avaliado o enquadramento do projeto. Com a aprovação na primeira fase, é aberta a solicitação de financiamento, quando deverão ser apresentadas a análise jurídica e garantias no valor financiado.
As condições variam conforme o objetivo e a atividade inovadora estabelecida no projeto. Em algumas linhas, o índice fica vinculado à Taxa de Juros de Longo Prazo – trimestral, fixada pelo Conselho Monetário Nacional, e que atualmente está em 5,5%. O prazo de carência para iniciar o pagamento vai de 12 a 48 meses, com quitação entre 36 e 120 meses.
* Fundo da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) – agência pública de gestão e fomento vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Além de recursos próprios, a entidade tem como fonte de aportes o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDTC), o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel), o Tesouro Nacional e o BNDES.
Tecnova*
Fundo de subvenção econômica (não reembolsável) com recursos de 190 milhões de reais. Os montantes para cada empresa variam de 100 000 reais a 400 000 reais.
A meta é apoiar em todo o Brasil 700 micro e pequenas empresas, com faturamento anual de até 3,6 milhões de reais, que estejam interessadas em desenvolver produtos, serviços e processos para agregar valor e diferenciais competitivos ao negócio.
Regras e condições –
Está em fase de seleção dos gestores. A etapa em que as empresas enviam suas propostas será aberta no segundo trimestre de 2013 no portal da Finep.
* Fundo da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) – agência pública de gestão e fomento vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Além de recursos próprios, a entidade tem como fonte de aportes o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDTC), o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), o Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel), o Tesouro Nacional e o BNDES.
Edital Senai/Sesi de Inovação
Lançado em 2004, o programa tem como diferencial o apoio direto do Serviço Social da Indústria (Sesi) e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) na gestão e execução dos planos. Na edição deste ano, foram destinados 30 milhões de reais a empresas com projetos de inovação tecnológica e social. Os aportes são de até 400 000 reais.
Regras e condições –
A lista com as empresas selecionadas pelo edital de 2012 foi divulgada em outubro. O próximo edital deve ser publicado no segundo trimestre de 2013.
São Paulo Inova*
Linhas de financiamento (reembolsável) para empresas com perfil inovador, preferencialmente instaladas em incubadoras ou parques tecnológicos, e sediadas no estado de São Paulo.
Regras e condições –
As propostas podem ser enviadas durante todo o ano pelo site da Desenvolve SP. O enquadramento será realizado com base no projeto apresentado, no valor a ser financiado e na faixa de faturamento da empresa.
Para startups, micro e pequenas empresas (com faturamento anual de até 360 000 reais), o financiamento varia de 20 000 reais a 200 000 reais. Não há juros para pagamentos até o vencimento. A taxa, no entanto, é de 6% ao ano em caso de inadimplência. A carência é de até 24 meses, com até 60 meses para amortização.
Para empresas com faturamento anual entre 3,6 milhões de reais e 90 milhões de reais, o valor máximo do financiamento é de 10 milhões de reais, com 30% de capital de giro associado. As parcelas são corrigidas pelo IPC-FIPE (0,55% em setembro) para pagamentos até o vencimento. A taxa de juros é de 7% ao ano, mais IPC-FIPE, em caso de inadimplência. A carência é de até 12 meses, com até 60 meses para amortização.
*Linha de crédito da Desenvolve SP – Instituição de fomento do governo paulista responsável por promover o desenvolvimento de pequenas e médias empresas no estado por meio de operações de crédito de longo prazo.
Inovação Paulista*
Fundo de investimento de capital semente (aporte de recursos em troca de participação acionária) para empresas com potencial de criação de produtos inovadores, preferencialmente, em nanotecnologia, ciências da vida e TI. Vai reunir recursos de até 100 milhões de reais, com aporte de 25 milhões de reais da Desenvolve SP e participação do Sebrae-SP, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da Finep e de eventuais investidores.
Regras e condições –
Está em fase de seleção de gestores. A etapa em que as empresas enviam propostas deverá ser aberta no primeiro semestre do ano que vem no site da Desenvolve SP. Às micro e pequenas empresas, inclusive as que estão em estágio inicial de operação, serão destinados 80% dos recursos, enquanto os demais 20% contemplarão empresas com faturamento de até 18 milhões de reais.
*Linha de crédito da Desenvolve SP – Instituição de fomento do governo paulista responsável por promover o desenvolvimento de pequenas e médias empresas no estado por meio de operações de crédito de longo prazo.
CNPq/RHAE Pesquisador na Empresa
Programa de apoio financeiro (não reembolsável) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que oferece bolsas de fomento tecnológico. O objetivo do projeto é estimular a contratação de profissionais do meio acadêmico por empresas privadas de todos os portes, inclusive micro e pequenas companhias. Os recursos são estimados em 60 milhões de reais.
Regras e condições –
O edital do Programa de Formação de Recursos Humanos em Áreas Estratégicas (RHAE) de 2012 foi lançado em junho e a primeira rodada de envio de propostas já foi encerrada. Os resultados serão divulgados até o final de outubro. A segunda rodada ficará aberta entre 29 de outubro e 28 de dezembro. A terceira rodada será aberta em 2013 entre 18 de março e 17 de maio.
Os projetos devem especificar as atividades de pesquisa a serem desenvolvidas, assim como o vínculo do coordenador técnico com a empresa. Projetos iniciais terão prazo de execução de 24 meses e receberão até 150 000 reais. Projetos em andamento terão prazo de 36 meses para execução, com apoio financeiro de até 400 000 reais.
Fundos privados
Alguns fundos de investimentos que começaram a operar no país nos últimos anos destinam recursos a empresas com faturamento de até 100 milhões de reais. Veja alguns exemplos.
Antera Gestão de Recursos
Telefone: 21 2554-8758
Internet: www.anteragr.com.br
BR Opportunities
Telefone: 11 2372-7430
Internet: www.bropportunities.com.br
Burrill Brasil Gestão de Recursos
Telefone: 21 3988-9620
Internet: www.burrillandco.com
Invest Tech Participações e Investimentos
Telefone: 11 3283-5840
Internet: www.investtech.com.br









