quinta-feira, outubro 25, 2012


Lucianne Carneiro
O Globo

Na última década, participação do país nas trocas mundiais pouco cresceu, enquanto a da China triplicou. E as exportações continuam muito concentradas em ‘commodities’

MARCIA FOLETTO / O GLOBO
José Augusto de Castro, da AEB: 
“A China roubou mercados”

A importância do Brasil no ranking das maiores economias do mundo não se reflete em sua participação no comércio mundial. O país detinha uma fatia de 1,41% do comércio mundial em 2011, parcela muito pequena. A expansão tem como base as commodities, com uma concentração cada vez maior na pauta brasileira de exportações. Hoje, apenas seis produtos respondem, em volume, por quase metade de tudo o que o Brasil vende para o mercado externo.

Para especialistas, o cenário acaba ampliando a dependência brasileira da oscilação de preços das commodities. Mais grave, no entanto, apontam, é que não se avança na exportação de produtos manufaturados, diante da pouca competitividade brasileira. Faltam estratégias para aproveitar os recursos oriundos das matérias-primas.

— Somos a sexta maior economia do mundo, o 22º exportador e o 21º importador. Nossa atuação no comércio exterior não é compatível com o Produto Interno Bruto (PIB). Temos um mercado doméstico grande, mas os Estados Unidos também têm e exportam muito — afirma o presidente em exercício da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Dos US$ 160,597 bilhões das exportações brasileiras em 2012 (dados até agosto), 44,42% vieram de apenas seis produtos: minério de ferro, soja, óleo bruto de petróleo, café em grão, complexo carnes (frango, bovina e suína) e açúcar. Em 2006, esses mesmos seis produtos responderam por 27,53% das exportações.

A expansão da economia mundial desde o início da década passada alavancou os preços de commodities. No Brasil, também cresceram os volumes exportados, o que aumentou o peso das matérias-primas na pauta de exportações. Além disso, a crise econômica mundial fez com que produtores de manufaturados buscassem outros mercados, aumentando a concorrência internacional.

— O Brasil tem uma participação diminuta no comércio internacional. Isso indica que o aumento das exportações brasileiras é um movimento decorrente da expansão da economia mundial. A gente surfa nessa onda, mas sem aumento da fatia do comércio global, como ocorreu com a China — afirma o presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), embaixador Luiz Augusto de Castro Neves.

Para se ter uma ideia, a fatia do Brasil no comércio internacional subiu de 0,85% em 2000 para 1,41% em 2011, enquanto a da China passou de 3,86% para 10,43%, e a da Índia, de 0,65% para 1,63%.

— Nossa participação cresceu por causa de commodities, sem que o Brasil tivesse influência nesse processo, enquanto a China abriu e roubou mercados, com quase 100% de suas exportações formadas por produtos manufaturados — explica Castro, da AEB.

A cautela é porque o preço das commodities é definido internacionalmente e oscila de acordo com o momento da economia mundial. Num momento de crise, pode cair e trazer impacto forte para a balança comercial brasileira.

— Nosso perfil de comércio exterior é dependente de commodities. Quanto mais a pauta está ligada a commodities, mais vulnerável é o país — afirma o economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) Rodrigo Branco.

É preciso investir em manufaturados
Castro Neves discorda. Segundo ele, “as commodities têm carregado o piano das exportações brasileiras”, e o grande problema é a falta de uma política para o bom uso desses recursos. Ele lembra que os próprios Estados Unidos foram um grande exportador de commodities e, com isso, financiaram sua industrialização.

— Nosso vizinho Chile, assim como Austrália, Nova Zelândia e Noruega, conseguiu crescer explorando as vantagens naturais. Uma boa alternativa seria estimular as cadeias industriais associadas a essas vantagens naturais — diz o professor do Insper Sérgio Lazzarini, que defende a criação de um fundo soberano para mitigar os riscos das commodities.

O problema, segundo Castro, da AEB, é o desempenho fraco das vendas de manufaturados:

— Exportar commodities não é ruim, o problema é só exportar isso. O Brasil é naturalmente um exportador de commodities. O que não podemos é deixar de exportar os manufaturados, que é o que está acontecendo.

Nessa área, no entanto, pesam contra o avanço dos manufaturados as já conhecidas fraquezas brasileiras, como a elevada carga tributária e a infraestrutura precária.

— O preço do produto manufaturado brasileiro é alto, por causa da precária logística de exportação e impostos elevados. O sistema tributário é a principal queixa de nossos clientes exportadores — revela Andrea Balassiano, sócia do Bichara, Barata e Costa Advogados.