terça-feira, novembro 20, 2012

O confisco da Eletrobras


Nelson Niero  
Valor

É impressionante o desprezo com que os burocratas de Brasília tratam o patrimônio das empresas estatais. "As ações sobem e descem", disse um deles semanas atrás quando perguntado sobre a reação do mercado ao pacotaço elétrico. No caso, desciam desvairadamente ladeira abaixo alguns bilhões de reais, parte do patrimônio do país e da aposentadoria de funcionários públicos como ele. Continuam descendo e no caso da Eletrobras rumam para o patamar de preço da época do confisco do governo Collor.

Não importa o nome de quem diz essas estultices, porque é incrivelmente recorrente. Dizem sem o menor escrúpulo, sem o menor receio de mexer com empresas negociadas em bolsa. As ações sobem e descem, e o fazem por algum motivo. No caso das elétricas, está bem claro. Não se trata da mão invisível do mercado, mas de uma mão gorda cheia de dedos com endereço certo no Planalto Central.

A Eletrobras, holding do setor elétrico, perdeu cerca de R$ 13 bilhões de valor de mercado neste ano até sexta-feira - passou de R$ 26 bilhões no fim dezembro para R$ 13 bilhões na sexta-feira, 50% de queda. A sangria continua hoje, com a ação PNB em queda de 10% às 14h15. O valor da empresa, reajustado pela inflação, está próximo do início da década de 90. 

Pelos menos metade do prejuízo é creditado direto na conta do governo, mais especificamente na do Tesouro (40,9% do capital total da empresa), da BNDESPar (14,7%)  e do próprio BNDES (7%), sem contar participações menores da Caixa Econômica Federal e de fundos diversos. (Como outro funcionário disse recentemente que as elétricas não podem ter lucros "extraordinários", outra ideia recorrente, os setores mais ideologicamente rancorosos do governo devem estar festejando que alguns estrangeiros, com o fundo norueguês Skagen, também estão afundando nesse barco.)

Mas perder bilhões é só parte da história. Com seu valor rumo aos R$ 10 bilhões (um banco já colocou seu preço-alvo em R$ 1!), a Eletrobras tende a valer um décimo de seu patrimônio líquido - que é do país, não do governo, nunca é demais lembrar. É um indicador, este sim, extraordinário. O mínimo que se espera é que uma empresa valha pelo menos o seu patrimônio contábil. A empresa está subavaliada desde meados da década de 90, mas o indicador atual está próximo de 2002, antes de o governo do PT assumir, quando o Ibovespa estava próximo de 8 mil pontos e o dólar batia em R$ 4.  Entre 1.955 empresas das Américas acompanhadas pela consultoria Economática, a Eletrobrás ficaria em 1.869º lugar no quesito P/VPA; entre as empresas do setor, não há nenhuma abaixo. Uma destruição de valor dessas não tem parâmetros na história moderna do mercado de capitais.