Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo
O governo promete bancar mais prejuízos da operação do trem-bala-fantasma de Dilma Rousseff, informava ontem esta Folha. Páginas adiante, a gente lia a respeito dos prejuízos causados pela falta de trens decentes para transportar os produtos brasileiros.
O trem-bala não sai da cabeça de Dilma. A ideia veio de um lobby de empreiteiras nacionais e empresas estrangeiras que vendem equipamento e tecnologia de trem-bala, criado em 2006.
O projeto terá parceria de estatal, subsídios diretos e vários indiretos, como financiamento do BNDES e seus juros baratinhos, bancados por dinheiro de impostos. Sem dinheiro público, nem o orçamento criativo do projeto faz sentido.
Segundo estudo da Fundação Dom Cabral, estradas ruins, ferrovias podres e a necessidade de usar a congestionada infraestrutura das grandes cidades levam 13% da receita das empresas. Admita-se que elas exagerem. Mas sabe-se muito bem que a produção de soja, por exemplo, é a mais eficiente do mundo até sair das fazendas do Centro-Oeste. Quando chega aos portos do leste, ela já tem preço brasileirinho.
Quais os setores mais prejudicados?
Bens de capital, o de bens de investimento, setor que pede ajuda do governo porque padece devido à concorrência estrangeira.
Construção. O custo de morar cresce. O custo da infraestrutura (estrada, porto etc.) aumenta.
Agricultura, setor que banca as contas externas com exportações, que fornece comida e matéria-prima para uma vastidão de produtos.
Dilma prometeu em agosto chamar empresas para construir rodovias e ferrovias. Deve anunciar as concessões por agora.
Afora promessas, na realidade a Ferrovia Norte-Sul está em construção desde 1987 (25 anos). Em parte, tem de ser refeita, pois a obra era porca e não havia pátios de carga e descarga ao longo do caminho!
A Norte-Sul deve ligar, no fim das contas, o noroeste de São Paulo ao Maranhão. Em Tocantins, solta um ramo para o sul da Bahia, a Ferrovia Leste-Oeste. É a segunda maior obra do PAC. Está atrasada.
A Norte-Sul e a Leste-Oeste, com as devidas conexões a outros modos de transporte e terminais, desafogariam as artérias do país, que anda devagar porque o sangue não circula direito.
Dilma diz que o trem-bala não vai atrapalhar essa e outras obras. Vai. Já atrapalha. Tira energia e atenção do essencial. Vai concentrar capital e energia pública e privada num projeto de baixo retorno econômico e social. Vai ocupar recursos que poderiam ser utilizados na reforma logística de São Paulo e Rio. A Grande São Paulo, onde vive 10% da população do Brasil, está parando.
Prevê-se que o trem-bala fique pronto em seis anos. Para fazer sua primeira linha, que tinha metade da extensão da brasileira, a Coreia do Sul levou dez anos.
A obra não tem projeto de verdade; seu custo é uma aposta. Custos estouram até em reforma de cozinhas, que dirá numa obra monstruosa. Desconhece-se o preço de desapropriações, de túneis, viadutos, nada se sabe sobre terreno, os problemas de solo e outras complicações de engenharia.
O projeto é uma ficção, aventura subsidiada por dinheiro de impostos num país com infraestrutura em ruínas e metrópoles em colapso.
****** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Excelente texto do Vinicius Freire. Aliás, refletindo sobre ele, é de se perguntar: donde foi que tiraram o mito de que Dilma Rousseff é excelente gerente? Gerente que não tem competência de atender prioridades? E prioridades que dizem respeito à educação e saúde? Que quer torrar bilhões de reais num projeto megalômano e que não resolverá problema algum de infraestrutura que pede atenção e urgência? Ora...
E um detalhe: reparem que “beleza” os modelitos de concessões do governo Dilma. Mesmo se houver prejuízo, apesar das toneladas de benefícios fiscais e creditícios, o governo, (ou seja, nós contribuintes,claro), é quem arcará com os prejuízos. Se o modelo é bom e a atividade rentável, prejuízo por conta do quê, afinal?
Por outro lado, se a atividade não tem viabilidade econômica, a tal ponto de que o governo pagará pelos prejuízos às concessionárias, por que a aventura? Por que torrar dinheiro bom em projeto ruim?