João Sorima Neto e Ramona Ordonez
O Globo
Papéis ON se desvalorizaram após mudança na política de pagamento de dividendos
Dólar encerrou em queda de 0,45% cotado a R$ 1,984
SÃO PAULO - As ações ON (com direito a voto) da Petrobras se desvalorizaram 8,28% a R$ 16,60 no pregão da Bolsa de Valores de São Paulo nesta terça-feira. Foi a maior queda do Ibovespa, principal índice da Bolsa, que fechou com baixa de 0,22% aos 59.444 e volume negociado de R$ 8,6 bilhões. Já os papeis PN da empresa (sem direito a voto) fecharam o dia em alta de 0,44% a R$ 18,09. Segundo analistas, o comportamento distinto das duas ações se deveu ao anúncio feito pela empresa de que o dividendo pago aos portadores de ações ON será menor do que o oferecido aos detentores de ações PN.
Com a mudança, que surpreendeu o mercado, o dividendo das ações ON caiu para R$ 0,47 por ação, contra os R$ 0,96 pagos ao detentores das ações preferenciais. O objetivo foi economizar R$ 3,5 bilhões, segundo anúncio feito pela presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, ao apresentar o resultado da companhia. No total, a Petrobras vai pagar R$ 8,8 bilhões em dividendos referentes a 2012, segundo o diretor-financeiro da Petrobras, Almir Barbassa. Sem a mudança, pagaria R$ 12,3 bilhões. Em 2011, tanto os detentores de ações PN quanto de ON receberam R$ 0,92% por ação. Este ano, os papéis PN terão um dividendo 4,35% maior do que o ano passado, enquanto para as ações ON o dividendo será 49% menor.
Com a mudança, o governo, que detém cerca de 60% das ações ON da empresa, entre União, BNDES e BNDESPar, também receberá menos dividendos. Segundo cálculo do estrategista Pedro Galdi, da SLW Corretora, o governo receberá cerca de R$ 2 bilhões em dividendos. No ano passado, recebeu R$ 4,09 bilhões.
O resultado foi a maior queda diária das ações ordinárias desde junho do ano passado, levando sua cotação para o patamar mais baixo desde dezembro de 2005. Segundo a agência de notícias Reuters, cerca de 54 milhões de ações, mais de oito vezes a média diária de negócios de 2012, trocaram de mãos nesta terça-feira. De acordo com operadores, o movimento foi interpretado como de troca de posição na empresa - investidores venderam ações ordinárias e compraram preferenciais. Os papéis PN movimentaram R$ 1,3 bilhão, o maior volume financeiro da Bovespa, seguidos pelos papéis ON, que giraram R$ 869 milhões.
Analistas interpretaram a estratégia da Petrobras como forma de reter caixa. Até então a Petrobras sempre utilizou o mesmo critério de distribuição de dividendos tanto para os acionistas portadores de ações ordinárias, quanto para os portadores de ações preferenciais. Mas sem previsão de novos reajustes no preço dos combustíveis e com indicações de que a produção de 2013 será praticamente a mesma de 2012, o caixa da empresa fica mais pressionado este ano, segundo relatório de analistas que acompanham a empresa.
- Com esse valor (os R$ 3,5 bilhões economizados) é possível construir uma unidade e produzir 150 mil barris por dia , que renderá receita futura - disse Graça.
Logo após a abertura do pregão, os papéis ON da petrolífera despencaram 9% e permaneceram em leilão até 10h15m na Bolsa. Só depois voltaram a ser negociados.
- Na Petrobras, isso não é comum. Os dividendos para as ações ON e PN sempre foram iguais. Por isso, o mercado bateu nos papéis ON, especialmente estrangeiros. Na ponta dos maiores vendedores, ficaram bancos como Bank of America Merryll Lynch, Morgan Stanley, e Caixa Geral de Depósitos - afirma o operador de uma corretora de São Paulo.
A ação ON têm peso de 2,4965% na carteira teórica do Ibovespa. Já o peso da ação PN é de 8,1323%. No fim do pregão, os papéis PN, que começaram o dia em queda, fecharam com valorização. Mesmo assim, a queda acentuada das ações ordinárias influenciou a desvalorização do índice nesta terça.
“A reação negativa do mercado às ações ON era esperada após a empresa anunciar que pagaria 49% dos dividendos que serão pagos pelas ações PN”, avaliou relatório do banco J.P. Morgan. Analistas do Bank of America Merrill Lynch classificaram como "precedente negativo" a decisão da companhia de pagar dividendo diferenciado.
Segundo o estrategista da corretora SLW, Pedro Galdi, a Petrobras pagará os dividendos em forma de Juro sobre Capital Próprio (JCP), mas não anunciou a data.
- Para o acionista que vai receber o dividendo não há diferença nenhuma. Mas, para a empresa, significa economia de impostos. Além disso, a Petrobras já pagou R$ 0,20 desses dividendos e pode pagar o restante quando quiser, já que não anunciou data para isso. É uma forma de reforçar seu caixa - diz Galdi.
O lucro da Petrobras também ficou abaixo das expectativas do mercado, que previa ganho de R$ 21,450 bilhões, uma queda de 35,6%. Na segunda, após o fechamento do mercado, a Petrobras anunciou um lucro de R$ 20,1 bilhões, uma queda de 36% em comparação ao ano anterior. No pregão de segunda, os papéis PN da Petrobras já haviam se desvalorizado mais de 2%.
“O resultado anual da companhia foi impactado principalmente pelo aumento na importação de derivados, pela defasagem no preço de venda interna em relação à cotação internacional, pelas baixas de poços secos e pela redução da produção de petróleo”, diz a equipe do BB Investimentos em relatório.
Para 2013, diz a equipe do BB Investimentos, há poucas esperanças de aumento significativo de receita.
"Entretanto, aguardamos para o ano um resultado positivo mais evidente dos programas de redução de custos, de aumento de produtividade e de desinvestimentos, entre outros. Por esses motivos, colocamos em revisão nosso preço-alvo para os papéis da Petrobras".
O Itaú Unibanco, maior banco privado do país também divulgou seus resultados nesta terça. O banco teve lucro líquido 7% menor em 2012, totalizando R$ 13,594 bilhões. Mesmo com a queda, o lucro do banco é o segundo maior da história do setor no país, ficando apenas atrás do próprio resultado da instituição, em 2011, quando o banco ganhou R$ 14,621 bi, segundo dados da consultoria Economatica. Entre os cinco maiores lucros da história dos bancos no país, três são do Itaú. Os outros dois são do Bradesco e do Banco do Brasil
De acordo com balanço publicado nesta terça-feira, a comparação dos resultados do quarto e do terceiro trimestre dão sinais de recuperação, com alta de 3,4% no lucro, de R$ 3,372 bilhões para R$ 3,492 bilhões. Diferentemente de seus concorrentes Bradesco e Santander, que mantiveram as taxas de inadimplência dos empréstimos inalteradas, o Itaú registrou redução na inadimplência. Os calotes em operações vencidas há mais de 90 dias ficaram em 4,8% contra 4,9% do ano anterior e 5,1% do terceiro trimestre de 2012.
- A queda da inadimplência foi a surpresa positiva do balanço do Itaú, embora a concessão de crédito tenha apresentado crescimento mais fraco que seus pares - afirma Rodolfo Amstalden, analista da Empiricus Research/Investmania.
O banco anunciou o pagamento de juros sobre capital próprio no valor de R$ 0,3824 por ação em 14 de março. Com o desconto de 15% do IR, o juro líquido é de R$ 0,3250.
As ações PN do Itaú subiram 2,51% a R$ 34,19.
Entre as demais ações com maior peso no Ibovespa, Vale PNA caiu 1,67% a R$ 38,10; OGX Petróleo ON recuou 6,21% a R$ 3,78, a segunda maior queda do Ibovespa, e Bradesco PN teve perda de 0,08% a R$ 35,88.
Na Europa, o clima foi de mais otimismo e as Bolsas subiram animadas por novos indicadores econômicos, após fortes perdas na segunda, causadas pelo desgaste político na Espanha. O índice Ibex, da Bolsa de Madri, se valorizou 2,20%; o índice Dax, da Bolsa de Frankfurt, avançou 0,35%; o Cac, da Bolsa de Paris, subiu 0,95% e o FTSE, do pregão de Londres, se valorizou 0,58%.
O Instituto de Pesquisas Markit Economics divulgou que o PMI de serviços na zona do euro subiu para 48,6 pontos em janeiro - maior nível desde março -, de 47,8 pontos em dezembro. O PMI composto, que agrega dados dos setores industrial e de serviços, subiu para 48,6 pontos em janeiro, de 47,2 pontos em dezembro.
Na China, o HSBC e o Markit Economics divulgaram que o índice dos gerentes composto (PMI, na sigla em inglês) que agrega dados dos setores industrial e de serviços, avançou para 53,5 pontos em janeiro, de 51,8 pontos em dezembro.
Nos EUA, o índice de atividade de serviços do Instituto para Gestão da Oferta (ISM, na sigla em inglês) recuou em janeiro para 55,2 contra 55,7 em dezembro. Mesmo assim, o índice ficou acima da previsão dos analistas, quer era de queda para 55 pontos.
Os principais índices americanos subiram nesta terça. O S&P 500 avançou 1,04%; o Dow Jones se valorizou 0,71% e o Nasdaq subiu 1,29%.
Dólar comercial fecha em queda de 0,45%
O dólar comercial fechou em queda de 0,45% frente ao real, negociado a R$ 1,984 na compra e R$ 1,986 na venda. Na máxima do dia, o dólar foi negociado a R$ 1,996 e na mínima a R$ 1,983.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, voltou a falar sobre o câmbio, mas suas declarações tiveram pouco impacto na cotação. Mantega disse que o objetivo do governo é evitar excessos no câmbio, reduzindo a volatilidade na taxa do dólar. O ministro afirmou que a taxa de juros “civilizada” causa menos distorções no câmbio e que, nos últimos meses, o Brasil conseguiu um nível de taxa cambial que estimula a exportação.
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Por que a Petrobras caiu tanto na bolsa? Veja em 5 pontos
Exame.com
São Paulo - A Petrobras (PETR3; PETR4) viveu mais um dia de forte queda na bolsa. Apesar de o resultado no quarto trimestre de 2012 ter superado as projeções, alguns detalhes sobre as expectivas para 2013 e distribuição de dividendos afetaram os papéis na Bovespa. Veja os 5 principais pontos nesta edição do Direto da Bolsa: