Ricardo Setti
Veja online
Ao votar em massa em Henrique Alves, símbolo de tudo o que já combateu, o PSDB pisoteia em seus ideais de origem e dá uma facada nas costas de seus fundadores
(Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil)
Henrique Alves (polegar levantado)
comemora sua vitória: com os votos do PSDB
Amigas e amigos do blog, mesmo metralhado por denúncias graves de possíveis delitos, o deputado Henrique Alves (PMDB-RN), membro de oligarquia que há mais de meio século se reveza nos principais postos de poder em seu Estado, foi eleito hoje, como se sabe, presidente da Câmara dos Deputados.
Presidente da Casa que deve representar o povo brasileiro.
Segunda pessoa na linha de sucessão da presidente da República, segundo a Constituição, depois apenas do vice-presidente.
Produto do conchavo mais rasteiro de um partido, o PMDB, que só pensa em cargos e vantagens.
Com o apoio feliz do Palácio do Planalto, tal como ocorria durante o lulalato.
Pois bem, deputados do PSDB — partido fundado em 1988 que tinha, entre outros, o objetivo de regenerar os costumes políticos brasileiros – votaram em massa nesse político que, além de tudo de mal que representa, só ostenta como proeza a se gabar o fato de estar na Câmara há 42 anos, embora não haja registro de uma única medida importante sequer que haja, em todo esse período, empreendido.
O PSDB, que no Senado agiu como se espera de um partido de oposição e, mesmo para perder a eleição, cerrou fileiras com a candidatura do atuante senador Pedro Taques (PDT-MT), na Câmara votou maciçamente num candidato que só ajuda a desmoralizar ainda mais o Legislativo e, portanto, a enfraquecer a democracia brasileira.
(Foto: José Luís da Conceição)
A Ponte Estaiada Orestes Quércia, em São Paulo:
homenagem a um político que o PSDB combateu duramente -- no passado
Decepção a seus eleitores
O PSDB decepciona seus eleitores não é de hoje. Vamos recordar aqui apenas um episódio, extremamente expressivo porque ocorreu no Estado de São Paulo, berço do partido supostamente “renovador”.
Refiro-me a uma concorrida homenagem do governo tucano de São Paulo ao ex-governador Orestes Quércia, falecido em dezembro de 2010. Quércia teve um final de vida de inspirar piedade nos homens de bem, golpeado que foi pela metástese fulminante de um câncer de próstata. Ninguém minimamente decente pôde se alegrar com isso.
O ex-governador, porém, como governante e como político, representava tudo de que os fundadores do PSDB queriam distância, por seus métodos e práticas, sem contar seu colossal, inverossímil enriquecimento pessoal durante os 25 anos período em que se dedicou em tempo integral à política como vereador, deputado estadual, prefeito de Campinas, senador da República, vice-governador e, finalmente, governador de São Paulo.
Muito em função das diferenças com Quércia, em 1988 poderoso e influente desde sua posição no Palácio dos Bandeirantes, tucanos de truz como o então senador e hoje ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os falecidos ex-governadores paulistas Franco Montoro e Mário Covas e o paranaense José Richa, do Paraná, os então deputados José Serra (SP) e Euclides Scalco (PR), jovens lideranças como o deputado Aécio Neves (MG) e dezenas de outros proeminentes nomes do PMDB país afora decidiram deixar o partido rumo a uma legenda que, entre outros objetivos, se pretendia mudar radicalmente, para melhor, o jeito de fazer política e de exercer o poder no Brasil.
Nesse quesito, pretendia-se que o PSDB estivesse do exato lado oposto da forma de agir na vida pública de Quércia e de outro governador da época com perfil similar, Newton Cardoso, o “Newtão”, de Minas Gerais e também do PMDB.
Passado jogado para o alto
(Foto: Agência Brasil)
Alckmin: Maluf como aliado e Quércia como homenageado
Pois bem, passam-se os anos e o governador tucano Geraldo Alckmin, em nome da “governabilidade” e com objetivos eleitorais para 2012 e 2014, jogou esse passado para o alto, fez as pazes do PSDB paulista com Quércia em 2010 e inclui o ex-governador em sua chapa para o Senado nas eleições daquele ano, junto com o tucano Aloysio Nunes Ferreira. A doença fez Quércia desistir da campanha e declarar apoio a Aloysio.
Coerente com seu passado, FHC esteve entre os poucos tucanos paulistas que não apoiaram a candidatura Quércia e gravou mensagem na TV apenas em favor de Aloysio, que acabou sendo eleito com votação recorde.
Colocar Quércia como parceiro de chapa, porém, não bastou para Alckmin. Ele precisou também homenagear o ex-governador — homenagem “justíssima”, disse, a um homem que “dedicou uma vida inteira a São Paulo e ao Brasil” –, batizando com seu nome uma bela e imponente ponte estaiada que liga a movimentada Avenida do Estado à pista central da Avenida Marginal do Tietê, mais movimentada ainda.
Covas, Maluf e uma facada nas costas
Para dar o toque político que eventualmente faltasse a essa reviravolta histórica do PSDB paulista, a seção mais importante do partido, que representou uma metafórica facada nas costas dos fundadores do partido — e em especial do falecido governador Mário Covas, que Alckmin considera seu mentor —, lá estava como convidado, na inauguração, sorridente e feliz, o deputado Paulo Maluf (PP), que conseguiu pular da posição de pária e alvo político da ferocidade do PT a firme apoiador do lulalato e do governo Dilma e, agora, igualmente aliado do governador Alckmin, a quem os malufistas apoiam na Assembleia e do qual obtiveram cargos no governo.
Desde o tempo em que os bichos falavam até sua morte, em 2001, Covas foi um implacável adversário de Maluf, de suas ideias, de sua atuação na vida pública e de sua forma de fazer política, e com igual energia combateu Quércia e tudo o que ele representava, dentro do PMDB e, depois, no PSDB.
Alckmin, de um só golpe, já havia absolvido dois rivais e antípodas históricos de um PSDB que não existe mais. O PSDB que não existe mais, e ao qual falta combatividade e, com exceções, vergonha na cara, acabou de pintar, hoje, na Câmara dos Deputados, seu feio auto-retrato.
Apoiar alguém como Henrique Alves, digno sucessor da memória de Quércia, é aplicar uma punhalada a mais nas costas de Covas, de Montoro e de outros que acreditavam haver um caminho mais decente a percorrer na vida pública. É pisotear os ideais que esses homens de bem defendiam.
O presidente do partido, deputado Sérgio Guerra (PE), disse que o apoio de deputados tucanos a Henrique Alves não constrange o PSDB. É verdade: a este PSDB, com as honrosas exceções de sempre, é claro que não…


