quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Maracanã tem risco real de não ficar pronto dentro do prazo


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Com Estadão Conteúdo

O Rio quer montar força-tarefa para concluir obras no estádio até o fim de abril

Ministério do Esporte/Divulgação 
As obras do Maracanã em dezembro de 2012 

O receio de que o prazo para o término das intervenções não seja suficiente é tamanho que as empresas que compõem o consórcio estão remanejando operários de outras obras em uma tentativa de acelerar ao máximo os serviços

O Maracanã corre sério risco de não ficar completamente pronto para a Copa das Confederações de 2013, que começa em 15 de junho. Entre os responsáveis pelas obras de adequação do estádio, há o temor de que a reforma não esteja 100% finalizada até o fim de abril, o "limite do limite" estabelecido pela Fifa no fim de 2012. Os engenheiros do consórcio responsável pela reforma, formado pelas construtoras Odebrecht e Andrade Gutierrez, já admitem internamente a possibilidade de que os trabalhos terão de ser interrompidos para a disputa da Copa das Confederações. Terminado o torneio - considerado o grande teste do país para o Mundial do ano que vem -, os trabalhos seriam retomados. Ou seja: no ensaio geral, para a Copa, o principal estádio, palco da grande final, pode estar incompleto. O primeiro jogo da Copa das Confederações no Maracanã está marcado para 16 de junho, entre México e Itália. A Fifa assume a gestão do estádio em 24 de maio.

O receio de que o prazo para o término das intervenções não seja suficiente é tamanho que as empresas que compõem o consórcio estão remanejando operários de outras obras em uma tentativa de acelerar ao máximo os serviços. Funcionários que trabalham na construção da linha quatro do metrô, que vai ligar a Zona Sul do Rio à Barra da Tijuca - parte do projeto carioca para os Jogos Olímpicos de 2016 -, começam a ser deslocados para o Maracanã. Ainda assim, a Secretaria de Estado de Obras, o Consórcio Maracanã 2014 e a Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio (Emop) mantém o mesmo discurso: por meio de suas assessorias, garantem que o Maracanã será repassado à Fifa com 100% de conclusão, incluindo as intervenções intramuros, cuja licitação foi vencida também pela Odebrecht, na semana passada. A Emop disse, porém, que não vai mais divulgar parciais de conclusão (a última indicava 80% ao fim de dezembro). Disse ainda que não iria se manifestar "sobre suposições e hipóteses".

"As obras vão terminar em abril e em 24 de abril haverá o primeiro evento-teste", informa o órgão público. Anteriormente, porém, quando apresentada a possibilidade de que o ritmo atual de trabalho seria insuficiente para a finalização total da obra, a Emop disse apenas que o Maracanã seria entregue "em condições" de receber os jogos da Copa das Confederações. "O importante é que vamos entregar o estádio para a Fifa", dizia a empresa. Desde o início da reforma, no segundo semestre de 2010, o Maracanã sofre com sucessivos atrasos no cronograma. Naquela ocasião, prometia-se a reformulada arena para dezembro de 2012, prazo inicial estipulado pela Fifa. Em março de 2011, contudo, o consórcio informou que toda a marquise do Maracanã e sua estrutura estavam seriamente comprometidas, o que exigiria uma adaptação do projeto inicial para a nova cobertura. Tal obstáculo, além de atrasar consideravelmente o cronograma, elevou o orçamento estipulado em 704 milhões de reais para quase 1 bilhão (revisado, após análise do TCU, para cerca de 860 milhões).

Com o problema, o novo prazo de entrega foi marcado para fevereiro de 2013. Em maio de 2012, o presidente da Emop, o engenheiro Ícaro Moreno, disse que o limite era "apertado" e seria necessário "correr muito", mas reafirmava que as chaves seriam entregues no último dia deste mês. Moreno também estipulava que o levantamento da estrutura que dará sustentação à nova cobertura seria feito em outubro. Esse estágio está sendo finalizado só agora. A instalação da lona que protegerá 76.000 dos 79.000 assentos ainda não começou. Deveria estar concluída em novembro, ainda segundo a estimativa de Moreno. Na última quarta, em visita ao Rio, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, disse estar "confiante de que todos os estádios serão entregues até abril". O presidente do Comitê Organizador Local (COL), José Maria Marin, afirmou: "A informação que nós temos é que os prazos serão cumpridos. Já agendamos o jogo com a Inglaterra no dia 2 de junho. Não iríamos correr o risco de chamar a Inglaterra e o Maracanã não estar pronto".

Valor do pagamento anual

A outorga prevista no modelo apresentado em outubro de 2012 é de 7 milhões de reais anuais ao estado. O governo do Rio ressalta que os participantes do processo poderão oferecer uma outorga maior para aumentar suas chances na disputa. Esse valor mínimo, porém, já seria aceito. O dinheiro a ser recebido não chegará nem perto do valor investido pelo governo no estádio. Nos 35 anos de concessão, dois são de carência, sem outorga. Nos 33 que restam, o governo receberá 231 milhões de reais. Somadas as últimas duas reformas do Maracanã (para o Mundial de Clubes da Fifa e o Pan de 2007) e as obras para a Copa de 2014 (orçadas em 869 milhões de reais), o Rio gastou mais de 1,27 bilhão de reais com o estádio. Na verdade, esses 7 milhões de reais anuais não são suficientes para pagar nem sequer os juros dos empréstimos que o Rio contraiu para bancar as obras para 2014 (só com o BNDES, são 29,6 milhões). O governo afirma que já sabia que não teria como recuperar o investimento através da concessão. Mas o tamanho do abismo entre o que foi gasto e o que será recebido - uma diferença de cerca de 1 bilhão de reais - causa desconforto.

Valor dos investimentos obrigatórios

O governo calcula que a concessionária do Maracanã gastará cerca de 43 milhões de reais anuais com a manutenção do estádio, sem contar a outorga a ser paga ao estado. Mas quem ganhar a licitação ainda terá de gastar um total de 496 milhões de reais em investimentos obrigatórios antes da Olimpíada de 2016. O dinheiro servirá para pagar a construção de estacionamentos, um museu e outras obras no entorno do estádio. A exigência é positiva, pois dispensa a necessidade de novos gastos públicos para preparar a região do estádio para a Copa e a Olimpíada. O valor, no entanto, é considerado relativamente baixo se comparado às despesas totais do governo na reforma da própria arena. Além disso, calcula-se que o potencial de receita do Maracanã seja suficiente para cobrir o gasto da concessionária com esse pacote de investimentos dentro de pouco tempo. O próprio governo estima em 154 milhões de reais a receita anual do estádio, que deverá atrair, além das partidas de futebol, um número significativo de grandes eventos, principalmente musicais (nos últimos anos, o Brasil se firmou como escala importante para as principais turnês de artistas internacionais).

Veto à participação dos clubes

O modelo proposto pelo governo impede que os times de futebol entrem na briga para conseguir a concessão do Maracanã. No passado, os rivais Flamengo e Fluminense chegaram a ensaiar uma parceria nesse sentido. Pelas regras do processo, porém, eles terão de se acertar com a concessionária para conseguir usar o estádio (atualmente, as duas equipes mandam a maioria de seus jogos no Engenhão, que foi arrendado pelo Botafogo depois do Pan de 2007). O aspecto positivo dessa decisão é a preservação do Maracanã como o principal palco do futebol carioca, evitando sua transformação na casa de apenas um grande clube do Rio. Para alguns especialistas em gestão esportiva, contudo, isso pode trazer problemas no futuro. Na Europa, os grandes clubes aumentaram sua arrecadação quando passaram a adotar um conceito diferente de exploração de suas arenas: restaurantes e lojas próprias atraem o torcedor a passar mais tempo no estádio (e, claro, a gastar muito mais no dia do jogo). Se continuarem como simples inquilinos, clubes como Flamengo e Fluminense podem preferir erguer suas próprias arenas no futuro, deixando o Maracanã de lado.

Demolições ao redor do estádio

Ao lançar a proposta para o futuro do Maracanã, o Rio selou o destino de várias construções vizinhas ao estádio. No mesmo dia em que o governo estadual anunciava o início do processo, a prefeitura revertia o tombamento do Parque Aquático Julio Delamare e do Estádio de Atletismo Célio de Barros, antes considerados patrimônios culturais da cidade. Tanto o parque aquático como o estádio deverão ser demolidos para abrir espaço para os futuros estacionamentos e para melhorar a circulação de pessoas ao redor do Maracanã. Também será demolido o prédio do antigo Museu do Índio, atualmente ocupado por cerca de 20 índios que reivindicam a construção de um centro dedicado à sua cultura no local. Por fim, deverá ser derrubada a Escola Municipal Friedenreich, considerada modelo - costuma aparecer entre as melhores do estado nas avaliações realizadas no Rio. As polêmicas demolições devem abrir espaço não só para estacionamentos, mas também para o futuro museu do futebol, bares, restaurantes e lojas. Essas novas instalações serão exploradas pela futura concessionária do complexo - e podem reforçar o potencial de receita de quem assumir o local.

Maracanãzinho na Rio-2016

Uma das poucas partes do complexo que não será demolida, o Ginásio do Maracanãzinho também é alvo de uma controvérsia na proposta de concessão. Se os termos apresentados em outubro pelo governo forem mantidos, a arena corre o risco de ser excluída da Olimpíada de 2016. Reformado para o Pan de 2007 (a obra custou 90 milhões de reais), o ginásio passou quase três anos sendo modernizado. Segundo a proposta de concessão, quem assumir o Maracanã terá de melhorar a acústica do local e realizar uma obra nas arquibancadas. O Maracanãzinho tem 11.800 lugares em sua configuração atual. Se a obra que está prevista pelo governo for concretizada, a capacidade cairá para cerca de 9.300 pessoas - o que deixa o ginásio muito abaixo da capacidade mínima acordada com o Comitê Olímpico Internacional (COI) para receber os jogos de vôlei em 2016. Nesse ponto, no entanto, a polêmica deverá ter vida curta: diante do risco de comprometer o uso do ginásio na Olimpíada, o governo já se comprometeu em adaptar os planos para cumprir as exigências do COI. O comitê da Rio-2016 informou estar trabalhando em parceria com o governo para indicar os ajustes.