quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Turbulências na esteira da Primavera Árabe


Editorial
O Globo

Protestos no Egito, guerra na Síria e ação jihadista na África testam disposição da comunidade internacional de agir de forma conjunta para conter crises

A Primavera Árabe sacudiu países embotados por décadas de ditaduras inescrupulosas no uso de qualquer meio para se perpetuar. Ao mesmo tempo, liberou forças poderosas, criando novas tensões e crises que levarão tempo para arrefecer no caminho da democratização. No Egito, uma rebelião popular a partir da Praça Tahrir, no Cairo, tomou vulto a ponto de derrubar o ditador Hosni Mubarak, principal aliado árabe dos EUA e fiador do acordo de paz com Israel. Por trás de Mubarak estavam os militares, que relutaram a passar o poder aos civis, e só o fizeram em junho de 2012, depois de eleições ganhas pela Irmandade Muçulmana, a segunda força mais poderosa do país.

Dois anos depois, o Egito segue em ebulição. O ministro da Defesa, Abdel Fattah al-Sisi, advertiu que o país está “à beira do colapso” devido às divisões políticas. Nos últimos dias, milhares de pessoas foram às ruas em protestos que violaram o toque de recolher nas cidades de Suez, Ismalia e Port Said. O presidente Mohamed Mursi, que não consegue conter a insatisfação diante dos problemas econômicos, ordenou o estacionamento de tropas ao longo do Canal de Suez, uma das principais fontes de divisas do país e vital para o comércio mundial.

Em muito pior situação está a Síria, onde a Primavera Árabe demorou mais a chegar, e a ditadura de Bashar Assad resiste furiosamente ao assédio de grupos que lutam para derrubá-lo. A guerra civil já dura dois anos e causou mais de 60 mil mortos e 700 mil refugiados. Assad tem usado seu poderio bélico contra população civil e rebeldes, e revidam quase na mesma moeda, também com violações de direitos humanos.

A Líbia, depois de uma guerra que resultou na na morte do ditador Muamar Kadafi, tenta se reestruturar. Um subproduto dessa luta causa hoje uma das maiores dores de cabeça na comunidade internacional. Jihadistas que combateram Kadafi viram na área desértica do Norte do Mali, na África Ocidental, o território ideal para se fixar e transformar o país numa base de operações contra o Ocidente. Esses militantes, em grande parte ligados à al-Qaeda, se aproveitam do momento em que os EUA repensam sua estratégia e decidem evitar novas intervenções dramáticas, como as do Afeganistão e do Iraque. Coube à França, ex-potência colonial, intervir para conter os jihadistas. O Reino Unido decidiu enviar centenas de militares para treinamento do Exército do Mali; os EUA obtiveram do vizinho Níger autorização para usar o país como base de drones, aviões não tripulados importantes em missões de vigilância e ataque.

Para a comunidade internacional, é vital pôr fim a guerras derivadas da Primavera Árabe — que não a desmerecem — e estabilizar os regimes que dela nasceram. A experiência dos EUA, principalmente no Iraque, mostrou que a intervenção unilateral não é a solução. A hora é de insistir no multilateralismo, na ação diplomática e na cooperação. Mas sem leniência diante do terror.