sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Orçamento: Renan falseia verdade, diz oposição


Josias de Souza


Líderes do PSDB e do DEM acusam o presidente do Congresso, Renan Calheiros (PMDB-AL), de “faltar com a verdade” ao responsabilizar a oposição pelo adiamento da votação do Orçamento da União de 2013. Uniram-se na reação a Renan os tucanos Carlos Sampaio e Aloysio Nunes Ferreira –líderes do PSDB na Câmara e no Senado, respectivamente— e Ronaldo Caiado, líder da bancada de deputados do DEM.Nesta quarta-feira, Renan adiou para 19 de fevereiro, seis dias depois da Quarta Feira de Cinzas, a apreciação do Orçamento. Em entrevista, justificou a protelação apontando a língua para a oposição. Segundo disse, as legendas que se opõem ao governo insistem em condicionar a análise do Orçamento à votação prévia dos mais de 3 mil vetos presidenciais pendentes de apreciação no Congresso.

Referindo-se a uma reunião de líderes partidários realizada em seu gabinete na véspera, Renan declarou: “Isso ficou claro inclusive na discussão. […] O óbice foi que a oposição não queria votar. A votação orçamentária geralmente se faz por acordo, pelo consenso, pelo entendimento. E não dava para votar.”

“Renan faltou com a verdade. Ele tem contra ele todo o colégio de líderes”, disse ao blog o deputado tucano Carlos Sampaio. “Renan não está sendo fiel à verdade dos fatos”, ecoou o senador tucano Aloysio Nunes. “Eles não votam porque os partidos governistas caminharam com a oposição –o PMDB, o PT, o PSB e outros”, reforçou o ‘demo’ Ronaldo Caiado.

Espremendo-se o que disseram ao repórter os três representantes da oposição, Renan mente –ou “falta com a verdade”, na linguagem edulcorada dos congressistas— em três passagens.

- A primeira inverdade: “Não é verdade que a oposição seja contra a votação do Orçamento”, diz Sampaio. “Depois de Romero Jucá [relator da proposta orçamentária], eu fui o primeiro a falar na reunião [realizada na sala de Renan]. Fizemos uma proposta clara: votaríamos primeiro os vetos –dois ou três separadamente, entre eles o dos royalties do petróleo; os outros, em bloco. Depois, na mesma sessão, aprovaríamos o Orçamento”.

Aloysio Nunes acrescenta que falta nexo à tentativa de responsabilizar a oposição. Revela que, na sua vez de falar na reunião, disse o óbvio: “Se o governo tiver um entendimento diferente do nosso, é muito simples. Basta o governo convocar a sua base parlamentar –imensa, oceânica— e votar o Orçamento antes dos vetos.”

- A segunda inverdade: a oposição não está só no seu desejo de votar os vetos presidenciais antes do Orçamento. Ouça-se Sampaio: “Falei primeiro. Depois, falou o Walter Pinheiro, senador do PT. Foi categórico: não vota o Orçamento sem votar os vetos. A palavra foi passada ao deputado Marcelo de Castro, que representava na reunião a liderança do PMDB. Foi na mesma linha. De tão enfático, o Marcelo levou o Renan a intervir: ‘Então, está cancelada a reunião de hoje’, ele disse.”

Sampaio, Aloysio e Caiado recordam que outros líderes governistas endossaram o entendimento segundo o qual os vetos vêm antes do Orçamento na fila de votação do plenário do Congresso. Além dos nomes já citados, mencionaram como partidário da tese Beto Albuquerque, que lidera na Câmara a bancada do PSB do governador pernambucano Eduardo Campos.

- A terceira inverdade: o responsável pelo adiamento da votação do Orçamento para depois do Carnaval é o próprio Renan, não a oposição. Devolva-se a palavra ao líder Sampaio: “Como presidente do Congresso, cabe ao senador Renan convocar as sessões. Ele tem o condão de determinar a agilidade. Para surpresa geral, marcou a votação para o dia 19. Por quê? Estamos no meio de uma semana absolutamente normal de trabalho. Hoje é quarta-feira. O PSDB está pronto para votar.”

Na véspera, Renan invocara a falta de quórum para justificar o cancelamento da sessão deliberativa do Congresso. Lorota, diz Caiado. “Quórum eles têm. O que lhes falta é voto. Tem 25 Estados esperando pela derrubada dos vetos que impedem a repartição dos royalties [de petróleo]. Quero saber quem é que vai votar só o Orçamento da União, deixando de lado os royalties. Quando o camarada chegar no seu Estado vai ser achincalhado.”

Aloysio Nunes evoca Leonel Brizola, líder eterno do hoje governista PDT: “Como dizia o Brizola, nessas horas é preciso vaquejar.” O que o líder tucano quis dizer, com outras palavras, foi o seguinte: antes de apontar o dedo para seus antagonistas, o governo precisa laçar o seu rebanho, levá-lo ao plenário e ensaiar o mugido. “Digo para o Renan: me inclua fora disso, por favor. Toma que o filho é teu”, encerra o líder do PSDB no Senado.