Caio Blinder
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Lavagem de roupa suja no Parlamento
O mundo árabe atravessa as turbulências de uma transição em que os velhos regimes caem, são ameaçados ou resistem. O regime islâmico em Teerã já é ancien (nasceu em 1979) e tenta resistir em meio à podridão interna, à fluidez do cenário regional e ao cerco internacional devido ao seu programa nuclear. Como diz um bom sacador das coisas lá de dentro, Karim Sadjadpour, como tantos regimes autoritários, a república islâmica tem os atributos de uma enorme máfia. Este é um regime criminoso, em termos comuns e políticos.
Desde domingo, circulam os vídeos, imagens e relatos dos embates no Parlamento iraniano entre duas facções do regime: uma do presidente Mahmoud Ahmadinejad e a outra da família Larijani (a conversa é de Máfia, mas esta é também uma família no sentido mais familiar da expressão), com troca de acusações de chantagem e corrupção. O presidente do Parlamento é um Larijani (Ali), muto chegado ao líder supremo, o aiatolá Khamenei, que despreza Ahmadinejad, o pequeno monstro que fugiu ao controle do grande déspota religioso.
Embora tenha revelado suas aspirações para ser o primeiro astronauta iraniano, o objetivo imediato do presidente é fincar os pés na lama política depois das eleições de junho (não vai concorrer a um terceiro mandato), numa disputa em que só podem competir integrantes das “famílias” do mafioso regime islâmico. Oposicionistas que concorreram nas eleições fraudulentas de 2009, que deram a vitória a Ahmadinejad, agora estão em prisão domicliar.
A lavagem de roupa suja no Parlamento indica alguma erosão da autoridade do capo Khamenei. Esta sujeira escancarada é mais uma mancha para o regime, marcado por incompetência econômica, atuação terrorista no mundo, mentiras sobre o seu programa nuclear e repressão dentro de casa.
São crimes em várias escalas. As sanções internacionais em punição a um programa nuclear ilegal sem dúvida agravaram a pobreza neste país, que já teria ido para o espaço (e não apenas o suposto macaco enviado na semana passada), sem suas receitas petrolíferas.
Um regime algoz e dois jovens
As indicações são de que as privações populares incrementaram o crime. Enquanto as facções lá em cima estão metidas na corrupção e desmandos em larga escala, o regime trata com rigor o populacho, com enforcamentos na principal praça de Teerã de acusados de roubo. No mês passado, foram enforcados dois jovens que roubaram e esfaquearam um homem. A vítima, que perdeu posses que valiam menos de 20 dólares, sobreviveu, mas mesmo assim os dois jovens foram condenados à morte e executados.
Existem fotos mais atrozes do que a publicada sobre enforcamentos no Irã, mas optei por esta dos dois jovens. Não vou fazer leitura da expressão de um deles, mas para mim é um tremendo impacto a imagem do rapaz aparentemente buscando o consolo no ombro do algoz.
De acordo com a organização Anistia Internacional, o Irã é país campeão mundial de enforcamentos patrocinados pelo estado (pelo menos 360 em 2011), mas o número é muito maior. O regime algoz quer intimidar a população com os espetáculos públicos de enforcamento.
Bem, de volta aos irmãos Larijani. O Ali, se pudesse, enforcava Ahmadinejad dentro do Parlamento. Outro, Sadegh, é aiatolá e chefia o Judiciário. Ele disse que os enforcamentos e o rigor são necessários nestes tempos problemáticos. Nas palavras dele, “precisamos aumentar os custos para aqueles que cometem os crimes de rua”. O crime supremo, sabemos, é este regime sórdido, que, além de enforcar os miseráveis, devora seus próprios filhos.

