quinta-feira, junho 13, 2013

A liberdade de Magda

Octávio Costa 
Brasil Econômico

Em pouco mais de seis meses, o jornalismo econômico perdeu três de seus decanos. Em novembro, partiu Joelmir Beting aos 75 anos, o homem que tornou acessível aos leitores os meandros da economia.

Em maio, veio a despedida de Alberto Tamer, um dos pioneiros da cobertura especializada na grande imprensa. Fez parte da famosa equipe do Estadão liderada pelo austríaco Frederico Heller, da qual também participou Robert Appy, que morreu na última sexta-feira, aos 87 anos.

De origem francesa, Appy chamava atenção nos eventos importantes, quando dialogava com autoridades e ministros de Estado, com seu inseparável cachimbo na mão. Nós, bem mais jovens, aprendemos a olhar para o trio com respeito e admiração.

Antes de ampliar o espaço nos veículos de grande circulação entre anos 60 e 70, a cobertura de economia já existia em órgãos tradicionais como o centenário Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro, e a Gazeta Mercantil em São Paulo.

Dessas redações, saiu a fornada de profissionais que ajudou a consolidar as novas editorias no Correio da Manhã, no Jornal do Brasil, no Globo, na Folha e no Estadão.

Conta-se que jornalistas especializados em política também foram atraídos para os fatos econômicos. Em plena ditadura militar, com a imprensa sob forte censura, não fazia muito sentido dedicar o tempo à caça de notícias que não podiam ser publicadas.

Repórteres e redatores tarimbados decidiram, então, mudar de ares e se especializar em macroeconomia e finanças.

Enquanto as editorias recém-criadas se dedicavam a textos técnicos sobre Bolsas de Valores, open market e o mundo dos negócios, não havia maiores problemas com os censores.

Mas à medida que a área passou a debater os equívocos da política econômica, o cerco apertou. Não escapou sequer o conservador Jornal do Commercio, onde a equipe de censores era comandada pelo major Nilton Cerqueira, que se vangloriava de ter matado Carlos Lamarca.

Eram proibidos temas como concentração de renda, dívida externa, inflação e crises do sistema bancário. A economia ia bem, o resto era intriga de inimigos do regime autoritário. Uma das autoridades que se esmerou em pedir cabeça de jornalistas foi o então ministro da Fazenda, Delfim Netto, hoje curiosamente reverenciado por quadros importantes do PT.

A blindagem da ditadura militar não se restringia à macroeconomia. Censuravam-se também as notícias de negócios, principalmente as que envolviam empresas estatais como Vale e Petrobras.

A respeito dessas duas, não se podia ir além dos comunicados oficiais. Os repórteres que se atreviam eram processados ou tinham de se apresentar à 5ª Sessão do Exército, no Comando Militar do Leste, para dar explicações.

Os generais consideravam, por exemplo, crime contra a segurança nacional revelar os principais países fornecedores de petróleo para o Brasil e o valor das importações da Petrobras. Quando esses números vazam, faziam pressão contra os autores das reportagens.

Tudo isso vai longe. Hoje, com a liberdade de imprensa, nada impede que se escreva sobre as reservas de petróleo e os desafios da Petrobras. Por isso, a entrevista da presidente da Agência Nacional de Petróleo (ANP), Magda Chambriard, ao Brasil Econômico, chega a surpreender pela total transparência. Mas é o que se espera das autoridades na plenitude democrática.