quinta-feira, junho 13, 2013

EUA e China estão obrigados a se entender

Editorial 
O Globo

Americanos se queixam dos ciberataques de Pequim e chineses mantêm reivindicações territoriais, mas interesses comuns suplantam divergências


O presidente dos EUA, Barack Obama, recebeu o presidente da China, Xi Jinping, na Califórnia. Ambos interessados em criar um padrão que dê estabilidade ao relacionamento bilateral mesmo em momentos difíceis, pois, se há vários pontos a separar os dois países, há também interesses comuns. “A China e os EUA devem achar um novo caminho, diferente da inevitável confrontação e do conflito entre os dois maiores países do passado”, disse Xi, numa alusão à Guerra Fria entre Washington e Moscou.

Obama pôs no centro das conversações as investidas da espionagem eletrônica e cibernética militar chinesa contra segredos militares e industriais americanos. Os ciberataques chineses, que roubam bilhões de dólares em propriedade intelectual, são impulsionados pela necessidade de queimar etapas para manter a economia crescendo a 7%/8% ao ano, de modo a criar empregos aos milhões de jovens em migração do campo para as grandes cidades. Obama fez ver a Xi que boa parte do sucesso futuro da relação bilateral depende da solução do problema. Não era o momento ideal para o líder americano, abalado pelas revelações sobre o aparato de espionagem mundial montado pelos serviços secretos dos EUA. Os chineses não se mostraram impressionados com as queixas.

Por sua vez, Pequim se manteve firme em suas reivindicações territoriais nos mares do Sul e do Leste da China, que envolvem o Japão, o Vietnã e as Filipinas, e causam tensão crescente. Os EUA gostariam de desinflar esses contenciosos, que podem, de uma hora para outra, exigir ainda maior presença naval americana naquela área do Pacífico, na medida em que mexem com aliados como o Japão.

Houve alguns avanços, como em relação à Coreia do Norte, cujo líder, Kim Jong-un, elevou as tensões com retórica beligerante e testes nucleares e de mísseis. Sob pressão da China, seu principal aliado, os norte-coreanos haviam concordado em reiniciar negociações com a Coreia do Sul, paralisadas há seis anos. O fato de Kim ter voltado atrás indica a necessidade de Pequim exercer mais pressão sobre a liderança norte-coreana para que haja progresso real.

A parte mais importante do encontro foi o fato de Obama e Xi terem tido tempo de se conhecer e até para uma conversa a sós de 50 minutos. Boa parte do sucesso desses encontros depende da empatia que se cria, ou não, entre os líderes. A situação entre as duas grandes potências de hoje não lembra, felizmente, a Guerra Fria, na qual se enfrentavam duas visões de mundo, sociedades organizadas de maneira oposta. No caso de EUA e China, os interesses comuns suplantam as divergências. Os primeiros precisam do mercado chinês e dos investimentos de Pequim em títulos do Tesouro americano. Os chineses necessitam também do mercado americano e da tecnologia made in USA para continuar avançando economicamente. São de fato o G-2.