Adelson Elias Vasconcellos
Bastou o povo ir às ruas e promover o estardalhaço que estamos assistindo há praticamente três semanas, para que governantes e políticos tomassem decisões reclamadas há muito tempo.
Claro que muitas destas decisões se encaixam no perfil do besteirol, da demagogia, do jogar para torcida. Mas, pelo menos, saíram do lugar, do termo recorrente da moda “de sua conforto”, que prefiro chamar de sua zona de preguiça.
Poderíamos alinhar outras tantas reivindicações que eles, mesmo que torcendo o nariz, acabariam adotando porque nenhum político é burro e estúpido de remar contra a maré, a exceção de Marcos Feliciano com sua estúpida ideia de cura gay. O raio é que se alinham com ele milhares de fanáticos que, numa próxima eleição, acabarão por consagrá-lo nas urnas.
O que preocupa são decisões tomadas no calor da emoção, de afogadilho, sem um pongo de racionalidade. Refiro-me principalmente as que resultarão em mais desequilíbrio fiscal, já no limite do suportável. Ou outras que, dado o tamanho da promessa, acabarão ficando pelo caminho, se é que conseguirão, um dia, sair do lugar, como o tal plano de mobilidade urbana.
Que lições podemos tirar disto tudo? A de que o povo brasileiro, quando mobilizado, tem a força suficiente para que a classe política faça aquilo para a qual foi eleita: trabalhar em benefício do país, e não exclusivamente em benefício próprio.
O perigo é que as medidas que vão sendo adotadas, acabem por esfriar esta mobilização, e tenham o dom de fazer com que a rotina dos braços cruzados retorne ao seu normal.
Não, não estou dizendo que os insatisfeitos devam prosseguir com suas passeatas que, regra geral, tem acabado com violência de todo o tipo. O país não suportaria economicamente tanta paralisação. A mobilização a que me refiro é aquela de se manter antenado, ligado nas notícias, medindo cada ação de nossos representantes que, goste a moçada ou não, nos representam sim. Afinal foram eleitos por nós.
Este tipo de manifestação “ele não nos representam”, mais do que revelar a despolitização das novas gerações, estão a indicar uma impressionante ignorância acerca da teoria política, naquilo que tem ela tem de básico, fruto de uma formação escolar distorcida e má qualidade.
Daí porque esta reação muitas vezes indicando que a juventude “alienou-se”, o que não é verdade.
Quanto à classe política seria conveniente que, antes de tomar qualquer decisão que possa afetar a vida dos brasileiros, ela ao menos refletisse e contasse até dez porque a emenda pode resultar pior do que o soneto. É o caso, por exemplo, da decisão de Renan Calheiros em votar, às pressas, o tal passe livre para estudante. Como a lei determina que nenhuma despesa seja votada sem indicar a fonte de recursos que bancará a despesa, Renan não titubeou em apontar para a ficção: a despesa “passe livre” para estudantes será bancada com recursos do pré-sal. Ok, mas a despesa acontecerá agora, e a receita só começará a acontecer lá por 2020. E, durante este tempo, de onde virão os recursos? Ora, do tesouro, meu caro, pressionando ainda mais a dívida pública.
Dilma anunciou um tal nacional de mobilidade urbana. Pergunto: neste plano ela irá incluir o tal “trem bala”? Apenas nesta megalomania se irá consumir cerca de 40 bilhões. O resto que ficar não cobre nem 10% das necessidades que tínhamos a uns cinco anos atrás, quanto mais as do momento.
Como o governo até agora não conseguiu encontrar nenhum maluco que se dispusesse a investir no sonho doido do trem bala, a cada nova rodada ele foi aumentando as facilidades. Hoje, praticamente, 100% do investimento será financiado pelo BNDES, que é dinheiro público, e de sobra, ainda subsidiará por alguns anos a falta de passageiros. Mais subsídios, mais dívidas.
Por outro lado, digamos que Dilma abandone, entre lágrimas e suspiros, esta fantasia. Ok, fica a pergunta: onde o governo encontrará num orçamento estrangulado, os tais 50 bi? Poderá apelar para BNDES e, de novo, teremos mais dívidas. Como este governo tem a maldosa mania de querer tabelar o lucro de concessionárias, é bem provável que terá dificuldades em encontrar investidores aventureiros capazes de embarcar na canoa furada. E, neste caso, provavelmente, serão criados novos subsídios que, de novo, irão estrangular as contas públicas.
Em política, nem sempre a ação pode resultar em reação igual e sentido inverso. E, por uma razão sensata: dinheiro não cai do céu, tampouco brota em árvores. Qualquer governante, de qualquer nível de poder, tem o compromisso com a responsabilidade fiscal, do contrário, se jogar tudo para o alto, e sair torrando dinheiro a mãos cheias, levará o país para o abismo econômico. O Brasil já passou por isso, e o custo foi suportarmos 25 anos de estagnação econômica com um custo social tenebroso.
Desde que assumiu Dilma não se cansa de chutar o balde da responsabilidade fiscal. O resultado desta ação muita da simples irresponsabilidade , além dos pibinhos minguados colhidos em três anos de governo (2013 já se encaminha para um resultado pífio, também), foi produzir juma desarrumação maluca nas contas públicas, com a consequência natural de total perda de credibilidade. Tanto é assim, que as agências de classificação de risco já anunciam a revisão do grau de investimento do país para baixo, o que dificultará a captação de recursos no mercado financeiro que cobrará mais para nos ceder estes recursos. E é bom lembrar a enorme dependência que temos por recursos externos, seja para investir, seja para equilibrar o déficit público.
E aí a lei de ação e reação firma-se com toda a força: a ação irresponsável resulta numa economia capenga e doente, fruto desta insanidade da classe política e dos governantes em achar que quantidade é sinônimo de qualidade. Em outras palavras, nem sempre gastar mais melhora a vida das pessoas. Pode resultar no inverso. O princípio basilar de qualquer gestor, seja ele público ou privado, é retirar o máximo de proveito do gasto que realiza, ou seja, precisa gastar certo e bem. Ação e reação. Algo que parece simples, mas que no Brasil ainda estamos longe de entender seu real significado.
Todo o material postado nesta edição é excelente. Mas, em especial, recomendo o artigo do Guilherme Fiúza, “Revoltados e atrasados”. Ele dá um tom realista e especial a lei de ação e reação. Mostra que a reação de indignação quando tardia, resulta não da insatisfação em si, mas do prejuízo de se colocar um poste em lugar de um governante. Esta fatura não poupa ninguém. Nem mesmo quem o elegeu. Porque levantar bandeiras de protestos é fácil. Quero ver levantá-las na hora das urnas. Ali é o local mais adequado para o país se indignar e varrer para longe da vida pública quem nela nada fez pelo país ou fez muito mal.
Guarde isto: O Brasil não precisa nem de governo popular muito menos populista. Precisamos é de um governo honesto e competente. Na história do mundo, há exemplos suficientes dos muitos governos regados a populismo barato e que levaram seus povos à ruína. Aliás, nem precisamos ir tão longe: Argentina e Venezuela estão bem aqui ao lado.