sábado, agosto 03, 2013

EUA jogam em duas frentes no Oriente Médio

Editorial
O Globo

Enquanto recoloca Israel e palestinos na mesa de negociações, Washington se esforça para não errar a mão no caldeirão egípcio

Os EUA estão enterrados até o pescoço em duas situações complicadíssimas de ambos os lados do Canal de Suez. A Oeste, o enigma egípcio. A Leste, o quebra cabeças israelense-palestino. Um influencia o outro. O último ganhou holofotes graças à façanha do secretário de Estado John Kerry de conseguir que os dois lados reiniciassem os contatos, estancados há três anos. Não é preciso dizer o quanto é difícil manter israelenses e palestinos em torno de uma mesa, tantas as questões aparentemente insolúveis no mapa da paz.
Mas a empreitada na margem ocidental do Suez não é menos intrincada. Sem poder segurar o ditador aliado Hosni Mubarak, derrubado por uma insurreição popular, os EUA rapidamente passaram a saudar a redemocratização do Egito, a suposta volta dos militares aos quartéis e eleições livres, engolindo em seco a participação inevitável da organização islamista Irmandade Muçulmana.

Esta venceu as eleições, o presidente eleito Mohamed Mursi meteu os pés pelas mãos e a experiência durou apenas um ano. Os militares o derrubaram, puseram-no em “lugar seguro” e passaram a perseguir os adeptos da Irmandade. A Casa Branca contorceu-se para evitar classificar o ocorrido como golpe, o que obrigaria à suspensão da ajuda anual de US$ 1,5 bilhão aos militares e levaria à redução de sua influência no Cairo. Mas a posição é precária. Os grupos laicos apoiaram a intervenção militar para deter a islamização patrocinada por Mursi e a Irmandade. Os militares passaram a reprimir brutalmente manifestações de protesto dos adeptos da Irmandade, havendo cálculo de 300 mortes nos choques, 80 no último fim de semana.

Os EUA precisam de um Egito estável e democrático. Para isto, têm de dizer aos militares que voltem aos quartéis e à Irmandade Muçulmana que pare de jogar pedras e participe de negociações que abram caminho a um entendimento nacional. Ao mesmo tempo, têm necessidade de que os militares egípcios continuem capazes de manter o Sinai sob controle, para tranquilizar Israel. Os EUA não podem apoiar os militares de forma que pareçam aprovar o golpe; devem ajudar a Irmandade Muçulmana a manter seu espaço político, mas não de forma que pareça um impulso à islamização; e precisam manter equidistância dos políticos laicos, que preferem um governo militar a uma democracia, ou algo parecido, liderada pelos islamistas.

O Egito é crucial para que os EUA conservem a influência no mundo árabe e para que Israel não se sinta ameaçado na fronteira ocidental, no Sinai. E, assim, possa atender ao forte desejo americano de que negocie a criação do Estado palestino, com as garantias de segurança que exige. Washington aposta no desarme da “bomba palestina”, para reduzir as tensões na região e em escala global. Se o Egito entrar em convulsão, Israel se levantará da mesa. E a tendência será piorar o que já é muito ruim.