O Globo
Declarações mostram visões divergentes sobre recente valorização do real
RIO - Se Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do jornalista Sérgio Porto, estivesse vivo e pudesse ouvir as recentes declarações das autoridades brasileiras sobre a escalada do dólar, certamente ficaria instigado: que material perfeito para o seu “Febeapá”. Para quem não se lembra, o “Festival de Besteira que Assola o País” era uma série de livros em que Porto narrava, em forma de notícias sérias, os disparates da vida pública brasileira. E, nesta semana, diante do avanço da moeda americana frente ao real, as declarações de ministros e membros do alto escalão do governo sobre o câmbio revelaram incertezas e divergências de percepções.
Depois de o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ter afirmado não saber “onde isso vai parar”, em relação à alta do dólar, na quinta-feira foi a vez de o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, dizer que um novo regime monetário “está se descortinando” no país, comemorando a valorização do dólar que, segundo ele, é um incentivo ao setor produtivo nacional
— Nós temos a expectativa de que o novo regime monetário está se descortinando. Muito provavelmente, o ciclo razoavelmente duradouro de valorização do dólar tende a criar condições mais favoráveis, do ponto de vista de taxa de câmbio, para a nossa competitividade a médio prazo — disse Coutinho, lembrando porém dos impactos sobre a inflação. — Certamente, há um desafio a curto prazo que precisa ser ponderado e ajudar a estabilizar e evitar pressões inflacionárias inconvenientes derivadas de uma depreciação da taxa de câmbio — afirmou o presidente do BNDES, que participou do Encontro Nacional de Comércio Exterior 2013.
Coutinho defendeu que uma taxa de câmbio entre R$ 2,20 e R$ 2,35 seria mais sustentável:
— Não tenho bola de cristal para dizer em que número vai estabilizar. Precisamos pensar no câmbio real e nas sequelas de inflação.
Na terça-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, também alertou sobre as pressões inflacionárias, mas não conseguiu estimar o seu impacto:
— Não sabemos onde isso vai parar — disse ele. — Alguma influência (na taxa de inflação) deverá ter, mas ainda não teve.
Já o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, disse que o dólar “está ótimo”:
— Quando o dólar estava barato, todo mundo reclamava que a indústria estava mal. Agora vão continuar reclamando? — indagou o ministro na quarta-feira. — O dólar está ótimo. Estamos chegando no ponto próximo ao ideal.
Menos confiante que Pimentel, o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, alertou, também na quarta-feira, para o problema da desvalorização do real:
— Quando a gente olha o Brasil, a gente costuma olhar é como é que está o PIB (Produto Interno Bruto), como é que está o dólar — disse Carvalho. — A gente costuma olhar esses fatores como aqueles que dão mais otimismo ou mais pessimismo.