quarta-feira, setembro 11, 2013

Controle de arsenal químico na Síria é missão impossível, dizem especialistas

O Globo 

Insegurança e falta de infraestrutura complicam fiscalização e descarte

AHMAD ABOUD / AFP 
Na cidade síria de Deir Ezzor, 
a destruição provocada pelos combates entre rebeldes e governistas 

WASHIGNTON — Na contramão de uma diplomacia esperançosa por um acordo para que o regime de Bashar al-Assad entregue seu arsenal químico ao controle internacional, analistas fazem previsões bem mais pessimistas. O consenso é de que tal plano seria impossível de se executar: identificar, checar e posteriormente destruir um enorme estoque de gases tóxicos espalhados pela Síria poderia demorar anos.

O primeiro obstáculo é a própria volatilidade da guerra civil. Mesmo que agentes das Nações Unidas tivessem acesso livre ao país para proteger e controlar o arsenal, seria complicado fazê-lo em meio à violência de combates imprevisíveis entre Exército e oposição. Garantir a segurança dos agentes internacionais também seria um compromisso impossível.

- Estamos no meio de uma guerra civil brutal na qual o regime sírio está matando o próprio povo. Alguém ainda acha que eles vão parar a batalha para que inspetores verifiquem, retirem e destruam as armas químicas? - ironizou um alto funcionário do governo americano.

Há ainda outros problemas. O sucesso da empreitada dependeria da honestidade do regime sírio para revelar todos os armazéns e fornecer um relatório detalhado de quantas, quais e onde estão todas as armas químicas. Parte dos estoques foi transferida nos últimos dois anos em função dos combates. E acredita-se que o Centro de Pesquisa e Estudos Científicos da Síria, uma instituição governamental, controla os estoques de armas químicas em Dumayr, Khan Abu, Shamat e Firaqlus - todas pequenas cidades no entorno de Damasco. Mas, desertores do Exército garantem que Assad transferiu quase todo o arsenal para regiões de predominância alauita, na região costeira ao redor de Latakia.

A destruição do arsenal representaria outro desafio. Os agentes internacionais teriam que coordenar o desmonte de mísseis, bombas e ogivas, separando e retirando os agentes químicos de dentro das cápsulas - um trabalho longo, custoso e arriscado, feito por robôs ou manualmente, por tropas altamente qualificadas. Somente então, o material tóxico deveria ser eliminado. Também seria necessário construir dezenas de instalações seguras para destruir esses agentes químicos ou adaptar os atuais armazéns para esse fim, evitando riscos de deslocamento.

- Isso não é simplesmente queimar as folhas caídas no seu quintal - observou Mike Kuhlman, cientista-chefe de uma empresa de coleta e destruição de material químico nos EUA. - Não é algo que se faça da noite para o dia e não é barato.

Há basicamente duas maneiras de eliminar agentes químicos: uma é pulverizar o material em fornos especializados e, em seguida, incinerá-lo a cerca de 1.100 graus Celsius durante um ou dois segundos. A outra é por neutralização. Agentes como o gás sarin podem ser inutilizados pela adição de hidróxido de sódio líquido; o gás mostarda, por sua vez, pode ser neutralizado com água alcalina.