Adelson Elias Vasconcellos
O mercado se disse surpreso com o tamanho do lance vencedor no leilão do aeroporto do Galeão. Pode ser. Mas creio que poucos se deram conta de um minúsculo detalhe que, nesta licitação em particular, deixou de existir quando comparada as anteriores, inclusive nos leilões de rodovias e ferrovias. Aqui, apesar da presença da Infraero como “acionista” do consórcio vencedor, o governo deixou de lado a tal “taxa de retorno”, isto é, o governo Dilma abandonou a esdrúxula mania de querer tabelar o “lucro” dos empreendimentos. E por que o não fez, tanto ao Galeão quanto Confins, o que não faltaram foram candidatos.
Não sei se o governo Dilma terá aprendido a lição ou não. Mas é um fato que, ao abandonar a regra patética, o governo conseguiu tornar, ao menos desta vez, bem mais atraentes as licitações. Mais até que o leilão do Campo de Libra, no pré-sal.
Dilma, em viagem de campanha pelo Nordeste, afirmou, naquele cinismo petista tão costumeiro quanto insólito, que os investidores têm sede de investir no Brasil. Errado. Investidor tem sede de investir onde as oportunidades de negócios lhe sejam favoráveis, onde exista real chance de ver seu investimento recompensado. E isto vale para o Brasil tanto quanto para outra nação em qualquer canto do planeta.
Portanto, retirando o imenso atraso do leilão, atraso este que acarretará a prestação de maus serviços durante a Copa do Mundo, quando a operação ainda será da responsabilidade da Infraero, no restante o processo foi exitoso. Mas que não se engane o governo: este êxito só foi possível graças as mudanças nas regras do jogo (o marco foi modificado uma dúzia de vezes), em que se afastou, principalmente, a estapafúrdia ideia de se querer regular o lucro das empresas.
Se tais condições se repetirem, não apenas para as próximas licitações de aeroportos, mas também de portos, rodovias, ferrovias e energia, há grande possibilidade de todos serem tão ou mais exitosos do que o foram Galeão e Confins. De um lado, o governo Dilma ganha uma enorme lição de boa gestão e de correta leitura do mercado e suas minudências, de outro, ganha o país, porque teremos aberto caminho para os bilhões de dólares que não temos para recuperar, modernizar e ampliar nossa infraestrutura, indispensável para dar novo impulso ao nosso desenvolvimento.
Portanto, que a lição que ficou seja permanente, que a mudança de postura dos petistas em relação ao capital privado seja duradoura e tenha vindo para ficar. Porque do sucesso das licitações, até o próprio PT tira excelente proveito. O atraso e a teimosia em se mostrar recalcitrante e preconceituoso em relação aos investidores privados custaram anos de baixo crescimento, perda de competitividade e prejuízos para todos. Não precisavam ter demorado tanto.
E a Biblioteca Nacional vale menos que os estilistas de moda.
Já faz algum tempo, antes mesmo de Marta Suplicy assumir o Ministério da Cultura, que denunciamos o descaso e o estado de abandono em que se encontrava a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. O antigo diretor foi afastado tão logo denunciou o nenhum interesse em cuidar e preservar aquele imenso patrimônio cultural por parte das nossas autoridades.
Nem com novo diretor, nem com a mudança no Ministério de Cultura, a coisa saiu do estado em que se encontrava antes. Conforme Elio Gaspari relata ao final de sua coluna publicada na Folha, neste domingo, nada se fez, nada se faz, ninguém se interessa.
Porém, bem ao estilo Marta Suplicy, garantir dinheiro para estilistas exibirem suas coleções de moda na Europa a grana está garantida.
Os petistas adoram meter bronca nas “zelite” como se eles não pertencessem a ela. Marta é um bom exemplo de que as elites petistas adoram garantir o reino da fantasia aos amigos de sua aristocracia, já para a cultura propriamente dita, patrimônio de toda a nação, que se dane.
Num país em que educação e cultura são tão maltratadas e olhadas com desprezo pelos governantes, não causa surpresa a ninguém nem o estado miserável da Biblioteca Nacional, tampouco a precariedade de 99% dos nossos museus. Pelos menos por aqui, os estilistas de moda estão amparados...