domingo, novembro 10, 2013

'Indignados' venezuelanos contra a paralisia política e econômica

Janaína Figueiredo 
O Globo

Apesar de apoiar protestos, oposição também está no radar de manifestantes

ANTONIO RODRIGUEZ/ EL NACIONAL 
Em supermercado de Caracas, na seção de aves, a evidente escassez de produtos

BUENOS AIRES - Nos moldes dos panelaços organizados pelos argentinos entre 2012 e 2013, foi convocada para este sábado na Venezuela uma onda de manifestações populares sem liderança política, em meio a uma gravíssima crise econômica e a um mês das eleições municipais. A organização dos “indignados” venezuelanos se deu principalmente via redes sociais, e a “Marcha Autoconvocada” ganhou apoio de dirigentes de peso da oposição, entre eles o governador do estado de Miranda e ex-candidato presidencial Henrique Capriles. No entanto, analistas locais afirmam que o protesto também tem como alvo a oposição, acusada por alguns setores de paralisia diante das ofensivas cada vez mais autoritárias do governo Maduro.

- Os venezuelanos têm direito a se expressarem sem a necessidade de passar pelo filtro de um partido ou da Mesa de Unidade Democrática (MUD) - declarou Capriles, que não confirmou se estará presente em alguma das marchas.

A onda de protestos, que poderia chegar até mesmo à comunidade venezuelana em Miami, veio à tona em momentos de verdadeiro caos econômico. A inflação atingiu 5,1% em outubro e acumula 45,8% nos últimos 12 meses. A escassez de produtos é, segundo analistas, dramática. De acordo com o próprio Banco Central, o índice de desabastecimento já alcançou 22,4% e a estratégia cívico-militar de controle de preços lançada por Maduro não consegue reverter um dos maiores flagelos que assolam o país.

- Os supermercados estão vazios, é um horror. Quando aparece algum produto difícil, as pessoas compram grandes quantidades porque o medo de não conseguir mais é grande. Estamos num círculo negativo, sem saída - comentou a jornalista Argelia Rios.

Para ela, não está claro quem está por trás das marchas, mas há a sensação de que “tem gente querendo enfraquecer a MUD”.

- Os protestos são contra tudo e todos. A crise, Maduro e também a oposição, que não satisfaz muita gente e é acusada de ter desmobilizado o país - disse Argelia. - O país está desmobilizado porque depois de ir para a rua por mais de quatro anos, no governo Chávez, as pessoas se cansaram.

Para governo, marcha ‘golpista’
Na visão da socióloga Margarita López Maya, existe um clima de mal-estar muito grande.

- Tem muito dinheiro na rua, porque em plena campanha o governo está liberando dinheiro, mas as pessoas não conseguem comprar nada e isso provoca indignação - explicou.

O presidente, que designou seu filho de 23 anos, Nicolás Maduro Guerra, como chefe de um órgão de “inspetores especiais” ligado à Presidência e chegou a ameaçar “confiscar armazéns inteiros para obter os produtos que o povo precisa e vendê-los a preços justos”, assegurou que a Marcha Autoconvocada é uma iniciativa “de setores golpistas e fascistas da direita e da oposição” que pretendem acabar com a revolução chavista.

- A oposição venezuelana quer gerar um conjunto de eventos de grande magnitude e impacto negativo contra a vida econômica, social e a paz do país para que as eleições de 8 de dezembro sejam suspensas - afirmou o chefe de Estado.