sexta-feira, novembro 01, 2013

Na visita à Pasárgada dos vampiros de verbas federais, Dilma conseguiu enxergar a inflação. Mas fez de conta que algemou a assombração que jurava não existir

Augusto Nunes
Veja online

Nos últimos dez meses, enquanto recitava que a inflação estava sob controle, Dilma Rousseff tentou rebaixar a “pessimistas de plantão” ou “pessoas que torcem para que o Brasil dê errado” todos os que enxergaram o perigo escancarado pela altitude dos índices. Nesta segunda-feira, durante a cerimônia festiva promovida por uma revista estatizada, a presidente enfim admitiu ter visto o que até agora jurava não enxergar. Mas a assombração, além de ter aparecido uma vez só, já foi algemada, mentiu a supergerente de araque.

“A inflação que no início do ano se mostrava alta e incomodava a todos foi enfrentada sem tréguas”, decolou a oradora. A salva de palmas reiterou que Dilma estava em casa. Se houvesse por lá um único e escasso jornalista de verdade, é improvável que a presidente se atrevesse a usar verbos no passado ─ “mostrava”, “incomodava” ─ para tratar de um problema presente que tende a agravar-se no futuro imediato. E talvez evitasse confinar “no início do ano” uma sequência de algarismos inquietantes que vai chegar a dezembro sem ter sido interrompida.

Em junho, a inflação anual (medida por organismos governamentais) alcançou 6,7% ─ bem acima da meta de 4,5%. De novo, a presidente e seu ministro da Fazenda recorreram à taxa de tolerância de dois pontos percentuais para insistir na tapeação: meta é qualquer coisa até 6,5%. Como justificar os 6,7% que haviam ultrapassado a última fronteira do perigo? Guido Mantega explicou à chefe que 0,2% a mais é o mesmo que nada. E Dilma comunicou à nação que tudo continuava sob controle.

Em setembro, o índice foi de 5,86. De novo acima da meta real, lastimaram os que não perderam o juízo nem a vergonha. Mas abaixo dos 6,5%, festejou o neurônio solitário, que só precisava dessa queda enganosa para dar por resolvido o problema que “incomodava a todos”. Como se não fosse bem mais feroz a inflação que acossa os bolsos dos brasileiros comuns. Como se as porcentagens oficiais não fossem deformadas pelo virtual congelamento das tarifas do transporte público, pelo represamento dos preços dos combustíveis e por outros artifícios que as leis do mercado não tardarão a sepultar.

Alheio às evidências, o palavrório triunfalista de segunda-feira seguiu seu curso. “Nunca é demais lembrar que temos apresentado sistematicamente um dos melhores desempenhos fiscais no mundo já ao longo de alguns anos”, foi em frente o poste que Lula instalou no Planalto. Mais aplausos referendaram a réplica fraudulenta às críticas feitas pelo FMI aos truques tributários e malabarismos aritméticos concebidos para maquiar contas que não fecham e ocultar os buracos que desmentem o superávit fiscal.

A exemplo da companheira Cristina Kirchner, Dilma acha que o resto do mundo não sabe o que fez no mês passado e fará no próximo. E parece convencida de que o País do Carnaval acredita em tudo: “Nós vencemos a inflação, estabilizamos as contas públicas, pagamos a dívida externa, saímos da supervisão do FMI e emergimos neste século como uma das maiores economias do planeta”, flutuou na estratosfera a presidente que festeja até leilão de um lance só. Se melhorar, estraga, concordou a ovação dos áulicos.

Eufórica com a visita a uma Pasárgada forjada por vampiros de verbas federais, Dilma nem precisou do Aerolula para voltar a Brasília. Mandou chamar o trem-bala.