O Globo
Com Agências Internacionais
Segundo ‘Le Monde’, França teria enviado informações privadas à agência americana, com base em acordo secreto vigente desde 2011
Centro Nacional de Inteligência espanhol também fornece informação para NSA, diz ‘El País’
MARTIN BUREAU / AFP
O presidente francês François Hollande durante visita a Eslováquia
PARIS e MADRI — O Centro Nacional de Inteligência (CNI) espanhol e a Direção de Serviços Exteriores (DGSE) da França transferiram periodicamente para a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, em inglês) grandes quantidades de metadados pessoais - a origem e o destino de ligações e a localização dos interlocutores, por exemplo - assim como fizeram quase todos os principais serviços de inteligência europeus.
Segundo fontes do jornal “Le Monde”, a França teria enviado informações privadas à NSA, com base em um acordo secreto vigente desde 2011. O mesmo acontece na Espanha, segundo o “El País”.
- Em termos gerais, são fornecidas informações de locais onde os americanos têm menos presença, fora e dentro da Espanha - explica ao jornal espanhol Luis de la Corte, diretor da área de estudos estratégicos de Inteligência da Universidade Autônoma de Madri. - Isso inclui áreas geográficas e grandes empresas espanholas que, por razões óbvias, são mais propensas a cooperar com os serviços do seu próprio país que com os de estrangeiros.
Na França, uma fonte anônima da DGSE disse ao “Le Monde” que o protocolo de troca de dados tornou-se operacional no início de 2012, confirmando um relatório publicado em 28 de outubro pelo jornal “Süddeutsche Zeitung”, que garantia que DGSE e NSA mantinham um programa de monitoramento conjunto, chamado Lustre. Segundo o periódico, a França tem uma posição estratégica no transporte de dados através de cabos submarinos que levam a maioria das informações provenientes da África e do Afeganistão.
De acordo com a reportagem, os dados enviados de Paris a Washington pertencem a cidadãos franceses e estrangeiros que vivem nas áreas geográficas que a França controla, o que sugere que o governo de François Hollande estava ciente das práticas quando na semana passada protestou publicamente sobre a espionagem maciça dos EUA em seu território. Os cabos são responsáveis pelo armazenamento do fluxo de informações entre a França e o exterior. A fonte da DGSE também revelou que a agência francesa oferece à NSA “blocos inteiros” de informação sobre estas áreas do mundo e, em troca, dá à França os dados da NSA sobre “regiões onde a França está ausente”. As negociações teriam ocorrido mais de uma vez.
Jean-Charles Brisard, especialista em terrorismo contratado por vítimas do 11 de Setembro para realizar sua própria investigação sobre o ataque, confirmou que os serviços de inteligência europeus entregam grandes blocos de metadados para a NSA.
- A colaboração entre as agências de inteligência se assemelha ao sistema SWIFT (a rede internacional de transações financeiras em Bruxelas). Os dados dessas operações são deslocados em massa para o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que tem capacidade para processar e detectar operações suspeitas - afirma ao “El País”.
Na terça-feira, o diretor da agência de inteligência americana, Keith Alexander, qualificou de “completamente falsas” as informações publicadas pelos meios de comunicação franceses e espanhóis e acusou seus aliados de serem os autores das escutas e do envio a a Washington de milhões de dados secretos.
EUA se comprometem a não espionar ONU
Nesta quarta-feira, depois de acusações de que os EUA espionavam até a Organização das Nações Unidas, o órgão afirmou que o país se comprometeu a não monitorar as comunicações da entidade. A ONU entrou em contato com autoridades americanas após as revelações feitas pela revista alemã “Der Spiegel”, em agosto, citando documentos vazados pelo ex-técnico da CIA Edward Snowden. Obama recentemente determinou que a NSA reduza as escutas na sede da ONU, em Nova York, como parte de uma revisão da vigilância eletrônica dos EUA.
- Fui informado que as autoridades americanas deram garantias de que as comunicações das Nações Unidas não são e não serão monitoradas - disse o porta-voz da ONU, Martin Nesirky. - A inviolabilidade de missões diplomáticas, incluindo as Nações Unidas, está bem estabelecida no direito internacional e, portanto, todos os Estados-membros devem agir em conformidade.
A Convenção de Viena de 1961, que rege as relações diplomáticas, protege as funções da ONU, missões diplomáticas e outras organizações internacionais.
Os Estados Unidos têm enfrentado críticas internacionais sobre suas atividades de vigilância de longo alcance, após a revelação de documentos secretos por Snowden. Aliados dos EUA, incluindo a presidente Dilma Rousseff e a chanceler federal alemã, Angela Merkel, protestaram sobre a espionagem americana de chefes de Estado.