Carlos Brickmann
Observatório da Imprensa
O ex-presidente Lula fez uma declaração irretocável sobre o uso político da Internet: a rede mundial é útil, é libertária, se contribuir para o esclarecimento da população. É ruim, é nociva, quando a liberdade que oferece é usada para caluniar, inventar, agredir. É boa quando usada com consciência e moderação; é péssima quando se transforma em veículo difamatório.
Mexer com a liberdade da Internet? Jamais, diz Lula. Mas é preciso cobrar responsabilidade de quem a usa; é preciso responsabilizar quem se manifesta pela correção, pela honestidade das informações que ali posta.
Este colunista já tratou do assunto e chegou a mais uma conclusão: quem quiser usar pseudônimo que continue a usá-lo, mas sua identidade verdadeira tem de constar em algum lugar - por exemplo, quando manda comentários sobre uma coluna, o colunista deve saber com precisão de quem se trata.
Os atingidos têm direito a recorrer à Justiça, e isso só é possível quando a muralha que protege os pseudônimos não permite o bloqueio total de informações. Voltando ao ex-presidente Lula: uma pessoa pode pegar o carro e viajar para onde quiser, livremente, sem restrições. Mas se atingir alguém, se causar um acidente, tem de responder por isso.
Ao dizer essas coisas, Lula está mexendo em área sensível: em seu próprio partido, o PT, há grupos organizados que lutam para desqualificar e desmoralizar pessoas e organizações às quais se opõem. Não é apenas o PT que faz isso; há muita gente que usa a Internet como se fosse guerrilha, e pertence às mais diversas correntes de pensamento político. O PT, entretanto, parece ser o mais organizado. O que não impede que viúvas da ditadura incensem generais (como dizia o marechal Castelo Branco, "como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar"); e que antipetistas busquem casos de dez anos atrás para noticiá-los como se fossem de agora.
Exemplos? Petistas correram para acusar o senador Aécio Neves de ligação com o narcotráfico, porque no helicóptero de um político mineiro havia meia tonelada de cocaína. Detalhe: o referido político tem boas relações com Aécio, mas pertence à base de apoio de Dilma. Antipetistas ressuscitaram uma velha besteira de Marta Suplicy que, quando ministra pela primeira vez, não queria permitir que sua bagagem de mão fosse inspecionada nos raios X. Petistas se apropriaram de uma tragédia - o cantor Cláudio Goldman, com carteira irregular, fez uma barbeiragem no trânsito e matou um motociclista - para realçar o tempo inteiro que se tratava do filho do ex-governador tucano Alberto Goldman. Um dos boletins mais ferozes acusava o próprio Alberto Goldman de ter provocado o acidente. Houve carteirada, houve ameaça, houve tentativa de influir sobre a ação da Polícia? O fato de ser filho de político importante influiu nos procedimentos policiais? Ao que se saiba, não. Então, por que tanta insistência em atribuir a morte "ao filho do governador", e não apenas ao cidadão?
O fato é que, pondo ou não a mão em vespeiro, Lula tem toda a razão: ou a liberdade proporcionada pela Internet é um notável avanço ou se transforma apenas em reforço para difamação. Falta ver se as palavras do líder maior do PT são obedecidas no mínimo pelos militantes de seu próprio partido. E cabe aos dirigentes de outras correntes políticas contribuir ativamente para evitar que um instrumento tão revolucionário se transforme apenas em chulo veículo de insultos e palavrões
Silêncio conveniente
A ministra das Comunicações, Helena Chagas, disse que não era mulher de pedir demissão. Foi a última a saber que tinha pedido demissão do cargo, tendo sido substituída por um profissional de quem não gostava, Thomas Traumann. Depois que o afastamento tinha sido decidido, depois que o substituto tinha sido escolhido, Dilma conversou várias vezes com Helena, e não lhe contou nada.
Helena agora diz, em seu twitter: "Impressionante a capacidade e o oportunismo de alguns para inventar histórias. Não me atingem.Estou que nem São Sebastião: o que é mais uma flechada?" Poderia ter completado, brincando, "o que é mais uma flechada para quem tem Chagas no nome?" Mas não deveria falar a sério. O respeito que Helena Chagas acumulou, por sua competência e seriedade, não deve ser dissipado na tentativa de salvar as aparências para quem a traiu.