Janaína Figueiredo
O Globo
Após maxidesvalorização do peso, comércio poderá fazer reajuste máximo de 7,5%
Natacha Pisarenko/AP
Caminho alternativo. Axel Kicillof, da Economia, questionou comerciantes
BUENOS AIRES - Na tentativa de conter a disparada de preços ocorrida após a maxidesvalorização na semana passada - a cotação do dólar oficial subiu de 6,72 pesos para 8,015, uma perda de 16,15% no peso -, a Casa Rosada anunciou nesta quarta-feira um acordo “voluntário” com empresas do setor de alimentos, insumos industriais, eletrodomésticos e outros produtos incluídos no chamado plano de “Preços Cuidados", lançado recentemente, que estabelece um mecanismo retroativo para congelar os preços no patamar de 21 de janeiro. O congelamento tem prazo indeterminado e abrange todo o país, não só a área da Grande Buenos Aires.
No caso dos eletrodomésticos, o governo da presidente Cristina Kirchner permitiu reajuste máximo de 7,5%, abaixo dos aumentos de até 30% verificados nos últimos dias. O ministro da Economia, Axel Kicillof, voltou a questionar os comerciantes, e o secretário de Comércio Interior, Augusto Costa, chegou a dizer, em tom irônico, que “cortaria a cabeça de alguns que sobem os preços”.
Economistas preveem que o peso sofrerá desvalorização superior a 20% neste mês, a maior desde março de 2002. A disparada do dólar provocou imediato aumento de preços, que a equipe de Kicillof não está conseguindo conter, e não está claro se o entendimento “voluntário” conseguirá.
- Vamos esclarecer, senão amanhã (quinta-feira) alguns jornais acostumados a este tipo de manipulação vão dizer que o secretário vai cortar cabeças (risos)... O que estamos fazendo é controlar o cumprimento dos acordos, e os que não os cumprirem serão punidos - declarou Kicillof.
Nos últimos dias, a secretaria comandada por Costa, sucessor do polêmico Guillermo Moreno, elaborou 31 atas de autuação em várias redes de supermercados pela violação do “Preços Cuidados”. O objetivo da equipe econômica argentina é reforçar esta ofensiva nas próximas semanas, contando com o apoio de prefeitos, governos provinciais e associações de defesa dos consumidores. Nesta quarta, os inspetores de Costa foram à empresa de alimentos Arcor, após receber denúncias de reajustes acima dos limites fechados com o governo.
- Podemos aplicar multas ou até fechar estabelecimentos, em caso de violação dos acordos e das leis de Lealdade Comercial e Defesa do Consumidor - explicou o secretário.
Kicillof e seus assessores se reuniram com mais de 500 empresários, inclusive dos setores de alumínio, aço, petroquímicos e plásticos. Nas próximas semanas, haverá negociações com fabricantes de materiais escolares, para evitar disparada de preços antes da volta às aulas, no fim de fevereiro.
- Estamos trabalhando para defender o bolso dos argentinos. Vamos fechar um acordo com associações de defesa dos consumidores e governos provinciais - afirmou o chefe de gabinete, Jorge Capitanich.
O mercado cambial está operando com relativa normalidade, e nos primeiros dois dias de vigência das medidas de flexibilização do câmbio, a Afip (Receita local) autorizou a venda de US$ 22 milhões. No mesmo período, as reservas do Banco Central da República Argentina (BCRA) recuaram US$ 362 milhões, caindo para US$ 28,7 bilhões, bem abaixo dos US$ 52 bilhões de 2011. Nesta quarta, a cotação do dólar oficial ficou estável, em 8,015 pesos. O paralelo, com raras operações, voltou a subir e chegou perto de 13 pesos.
Fuga de capital preocupa
Enquanto o governo está preocupado com os preços, os bancos temem que correntistas retirem os pesos das instituições para comprar dólares, agora que é permitido adquirir a moeda americana para poupar, no limite de US$ 2 mil mensais. No último mês, os depósitos em moeda local caíram 20 milhões de pesos. Embora não seja um montante expressivo, mostra, segundo fontes do setor financeiro, uma tendência preocupante.
