O Globo
Com Agências Internacionais
Duas pessoas morrem em confronto durante novo protesto no leste de Caracas, aumentando para 20 o número de vítimas fatais
ONU pede explicações ao governo sobre violência em protestos
Carlos Garcia Rawlins / REUTERS
Manifestante é detido por policiais em protesto em Caracas
GENEBRA — Três coronéis da Guarda Nacional Bolivariana foram destituídos de seus cargos na Venezuela e estão sendo investigados internamente, por decisão do comandante-general do Comando Regional 2. Segundo fontes, os oficiais teriam expressado, durante o carnaval, seu descontentamento com os excessos na repressão aos manifestantes que realizam protestos em Carabobo desde o início de fevereiro. Nesta quinta-feira, duas pessoas morreram, um deles um policial, em um confronto durante um novo protesto no leste de Caracas, aumentando para 20 o número de vítimas fatais nas manifestações que começaram há um mês no país.
A onda de protestos contra o governo de Nicolás Maduro, iniciada há um mês, já deixou 19 mortos, 260 feridos e centenas de detidos, além de inúmeras denúncias de violações dos direitos humanos. Em Valencia, um policial foi filmado enquanto golpeava uma manifestante, Marvinia Jiménez, depois de sentar sobre ela. Em Carabobo e Aragua, oficiais foram acusados de agir com grupos armados. Funcionários também foram gravados usando armas de fogo.
— Lamentavelmente, anunciamos a morte de um efetivo da Guarda Nacional nos enfrentamentos — anunciou Carlos Ocariz, prefeito do distrito Sucre.
Pouco depois, a informação foi confirmada na televisão pela procuradora-geral do Estado, Luisa Ortega Díaz. Segundo autoridades, o incidente aconteceu quando um grupo de motoqueiros tentava desmontar uma barricada que obstruía as ruas há dias. Testemunhas afirmaram que os disparos vieram do grupo de manifestantes opositores. O presidente da Assembleia Nacional e número dois do chavismo, Diosdado Cabello, no entanto, atribuiu as mortes a “franco-atiradores”.
— Foram dois mortos: um homem em uma moto e um guarda nacional, ambos com tiros na cabeça. Franco-atiradores atiraram nos dois do alto de edifícios, o mesmo que aconteceu em 2002 (...). Os homens motorizados apenas fazem isso, recolhem o lixo — disse Cabello.
O grupo de motoqueiros, com cerca de 500 pessoas, chegou a queimar um carro, de acordo com o “El Nacional”. Alguns gritavam palavras de ordem a favor de Hugo Chávez. Nem os policiais nem membros da Guarda Nacional impediram a atuação do coletivo.
ONU pede explicações ao governo sobre violência
Mais cedo, especialistas em direitos humanos das Nações Unidas enviaram nesta quinta-feira uma carta ao presidente Nicolás Maduro pedindo explicações sobre o uso de violência e a prisão de manifestantes durante os protestos na Venezuela. Eles defendem ainda uma investigação urgente e minuciosa sobre o caso.
O texto — assinado pelos relatores especiais Frank La Rue, Maina Kiai, Mads Andenas, Juan Méndez, Christof Heyns e Margaret Sekaggya — pede “o esclarecimento imediato das denúncias de detenção arbitrária e uso excessivo da força e violência contra manifestantes, jornalistas e trabalhadores de meios de comunicação durante a recente onda de protestos no país” e que já deixaram 17 mortos desde o dia 12 de fevereiro.
A crise na Venezuela é tema de uma reunião da OEA nesta quinta-feira, a portas fechadas. Maduro, no entanto, já afirmou que não aceitará a mediação da organização, da qual os Estados Unidos fazem parte.
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
É aconselhável que Nicolás Maduro vá devagar na sua tentativa de silenciar os militares venezuelanos. O que garantiu ao chavismo avançar em seu processo de aniquilar com as instituições democráticas do país, foi justamente o apoio incondicional que recebeu dos militares. Abrir uma guerra interna, nesta altura, não é um bom negócio. Vai criar uma área de atrito contra a qual ele não terá forças suficientes para dominar.
É aconselhável que Nicolás Maduro vá devagar na sua tentativa de silenciar os militares venezuelanos. O que garantiu ao chavismo avançar em seu processo de aniquilar com as instituições democráticas do país, foi justamente o apoio incondicional que recebeu dos militares. Abrir uma guerra interna, nesta altura, não é um bom negócio. Vai criar uma área de atrito contra a qual ele não terá forças suficientes para dominar.
Não seria surpresa a Venezuela sofrer um golpe de estado provocado pelos militares que, ao contrário de Argentina e Brasil, ainda gozam de muito prestígio político no país e apoio da população.
