quarta-feira, março 19, 2014

Estresse de energia antes e depois da Copa do Mundo

Danielle Nogueira, Ramona Ordoñez e Danilo Fariello
O Globo

Indústria antecipa produção por causa dos feriados. Especialistas temem ‘dia seguinte’ ao Mundial

Michel Filho / Michel Filho/13-3-2014 
Estiagem prolongada. Usina Hidrelétrica de Marimbondo em Icém, 
na Grande São Paulo, está com nível de água muito baixo 

RIO e BRASÍLIA - Com o baixo nível dos reservatórios e a previsão de poucas chuvas para o período de seca que se estende até setembro, especialistas já começam a se preocupar com os meses que antecedem a Copa do Mundo e com aqueles que a sucedem. Por enquanto, não há preocupação quanto ao abastecimento de energia durante o Mundial. Mas há o temor de um “estresse pré-Copa”, com um maior consumo de energia pela indústria, que deve antecipar a produção de alimentos, bebidas e outros bens não duráveis para compensar os dias parados com os feriados no período dos jogos.

Se a realização dos jogos da Copa está garantida — graças ao esquema montado pelo governo com a Fifa, que inclui, entre outros equipamentos, a instalação de geradores nos estádios — fontes do setor elétrico demonstram preocupação com o “dia seguinte” ao Mundial, caso o governo abuse do nível dos reservatórios antes e durante o evento. Segundo consultorias, se for inevitável, quanto mais tarde um racionamento for decretado, mais severo ele seria para o país.

Os jogos são a receita para um maior consumo de água, cerveja e petiscos. Por isso, o setor de alimentos e bebidas deve antecipar a produção. O grupo cearense Edson Queiroz, fabricante das marcas de água mineral Minalba e Indaiá, tem plano para aumentar a produção e garantir o abastecimento do varejo no torneio.

— Durante a Copa, haverá aumento do consumo flutuante. Por isso, coordenamos o trabalho nas fábricas, para que não falte produtos nos pontos de venda — disse Camila Coutinho, gerente nacional de Marketing para as marcas Indaiá e Minalba.

E há um temor com possíveis protestos durante a Copa.

— As indústrias já negociam com o atacado para que as mercadorias estejam nos depósitos até maio — disse o presidente da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores de Produtos Industrializados (Abad), José do Egito Frota Lopes Filho.

É essa conjunção de fatores que preocupa Mikio Kawai, diretor da Safira Energia:

— Durante a Copa, o consumo de energia deve cair, devido aos feriados. Há o risco de um estresse pré-Copa, justamente porque não chove, e as indústrias devem consumir mais, para alavancar a produção.

Esquema especial para a Copa
Na Copa, mesmo em caso de racionamento, uma rede de geradores permitirá que os estádios e a transmissão de informações operem de maneira independente da rede básica que atende às cidades-sede. Apesar disso, há aposta de que, mesmo se for necessário, o governo não decretará racionamento durante o evento.

Entre os compromissos assumidos pelo governo na sua proposta para sediar a Copa, está o fornecimento de energia aos estádios em sistema de dupla alimentação. Geradores e baterias vão assegurar a realização de jogos e a transmissão, mesmo na hipótese de falta de luz.

Há previsão de dois sistemas de geradores para suprir essa necessidade. O primeiro prevê equipamentos para atender à transmissão de dados e ao Centro Internacional de Transmissão (CIT) no Rio, onde a operação será compartilhada com a Light. A Fifa contratou o serviço com a multinacional Aggreko, com custo de R$ 47 milhões. A multinacional já forneceu esse serviço à Fifa na Copa da África do Sul, em 2010, e em Jogos Olímpicos.

O segundo sistema, que vai atender aos estádios, ainda não teve contratação formalizada em todas as cidades-sede.