Tribuna da Imprensa
Publicado no Valor
O setor mineral brasileiro receberá US$ 53,6 bilhões em novos investimentos nos próximos cinco anos, até 2018. Esta é a previsão mais recente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). A cifra até parece positiva quando o valor é olhado isoladamente. Mas é muito pequena quando se observa o potencial minerador do país. E parece ainda menor se comparada ao valor de dois anos atrás. A previsão era de US$ 75 bilhões para o período de 2012 a 2016. Hoje, os recursos previstos são 28,5% menores.
A razão das quedas não é única, mas um conjunto de fatores que fizeram minguar o otimismo na mineração brasileira. Queda dos preços das commodities, burocracia excessiva para licenciamentos ambientais, escassez de capital e incertezas regulatórias formam o pacote de desestímulo.
O preço das commodities metálicas tem reduzido os retorno dos projetos, o que levou empresas a substituir planos de investimentos por cortes de custos e busca por eficiência. “Muitas passaram a trabalhar só com jazidas que permitiam preços mais competitivos”, diz Martiniano Lopes, sócio-líder da PwC para recursos naturais.
“Muitos projetos tinham sido planejados há quatro ou cinco anos, em outro patamar de preços. É natural que muitos estejam sendo revistos, em todo o mundo, até porque muitas empresas tiveram que dar baixas contábeis grandes”, diz Bruno Rezende, da Tendências Consultoria. No Brasil, é o caso da AngloAmerican, que anunciou em 2013 uma baixa contábil de R$ 4 bilhões no projeto Minas-Rio.
“Há muitos casos de projetos engavetados no país, à espera de uma melhora dos preços. Podem não ser cancelados, mas deverão de um ‘delay’ de cinco ou até dez anos”, diz Rezende.
AUSTRÁLIA PASSA O BRASIL
Além do preço dos metais e da escassez da capital, que atingem empresas em todo o mundo, o Ibram diz que o grande entrave do Brasil, hoje, é a burocracia ambiental. “A demora para a liberação de uma mina chega a dez anos. A própria Vale demorou uma década para obter as licenças todas do projeto S11D [minério de ferro]“, diz José Fernando Coura, presidente do Ibram. Na visão dele, “faltam critérios” para a autorização dos projetos no país, e a demora para as licenças fazem com que os aportes demorem a acontecer.
A Austrália passou o Brasil em produção em 2008. Em 2013, o país produziu 525 milhões de toneladas de minério de ferro, 26% mais do que a produção brasileira. A tendência é de a diferença se ampliar. No ano passado, os australianos investiram perto de US$ 1,6 bilhão em exploração mineral, enquanto os investimentos brasileiros ficaram próximos de US$ 300 milhões, de acordo com a empresa de pesquisa SNL Metals & Mining.
O aumento recente do risco de racionamento de energia, a inflação dos custos de produção e a indefinição sobre o marco regulatório do setor fecham o quadro de entraves ao aumento de investimento em mineração no Brasil.