sexta-feira, março 14, 2014

O papel que a Unasul deveria ter na crise venezuelana

Editorial
O Globo

Maduro precisaria ser condenado por violações dos direitos humanos e pressionado a dialogar com a metade do país que deseja a volta da democracia

A tensão subiu mais na Venezuela depois do anúncio de mais duas mortes de estudantes universitários. A liderança estudantil convocou nova manifestação em Caracas para hoje, quando se completa um mês do início dos protestos contra o governo de Nicolás Maduro, nos quais morreram até agora mais de 20 pessoas. Daniel Tinoco levou um tiro no peito em San Cristóbal, onde começaram as manifestações e palco de dura repressão do governo. Angelo Vargas foi baleado em Ciudad Guayana.

A Venezuela está hoje em profunda crise política, econômica e social. Causada pelo chavismo, com seus mirabolantes “socialismo do Século XXI” e “revolução bolivariana”, que se valeram das instituições democráticas para atacar por dentro a democracia venezuelana: o Legislativo e Judiciário foram transformados em ferramentas do Executivo; a liberdade de imprensa , garroteada; e a petrolífera PDVSA e a economia do país, sucateadas. Tudo isso se agravou com a morte de Hugo Chávez e a eleição, por um punhado de votos de diferença, do herdeiro Maduro. A divisão política do país se aprofundou e a crise econômica — desabastecimento, inflação de 56% ao ano, apagões, infraestrutura aos pedaços, falta de divisas para importação, etc — levou estudantes e opositores às ruas contra o governo.

Na repressão, este mostrou sua face mais violenta. O líder oposicionista Leopoldo López, que participou dos protestos, foi preso e responsabilizado até por mortes causadas, ao que tudo indica, pelas forças de segurança ou por forças paralelas que atuam a mando do governo, como os coletivos, motoqueiros que caçam opositores, feito comando nazistas. Segundo a ONG Foro Penal, 1.276 pessoas foram detidas, das quais 46 permanecem presas. A organização tem ainda provas de 40 casos de tortura a presos, em muitos casos estudantes.

A situação preocupa o continente. Mas os aliados do chavismo impediram uma atuação mais efetiva da OEA, por considerá-la dominada pelos EUA. Como queriam, a situação será examinada hoje, em Santiago, pelos chanceleres da União Sul-americana (Unasul). A presidente Dilma Rousseff adiantou que será criada uma comissão (...) “para que o diálogo construa um ambiente de acordo, de consenso e de estabilidade” no país. Mas dali, salvo surpresa, não sairá condenação a Maduro pelas violações dos direitos humanos e por sua insistência em não dialogar com a oposição, único caminho para que o país saia do pântano.

Comissões são criadas quando, em geral, não se quer resolver coisa alguma. Por seu peso, o Brasil deveria levar a Unasul, com apoio das demais democracias da região, a pressionar Maduro a dialogar com a outra metade da Venezuela que quer de volta a democracia, as liberdades e o crescimento econômico. A Unasul poderá ser cúmplice de uma tragédia ainda maior na Venezuela.