sexta-feira, abril 11, 2014

Acre desativa abrigo para imigrantes em Brasileia

Cleide Carvalho 
O Globo

Cerca de 700 haitianos seguirão em viagens de ônibus para São Paulo até sábado
Situação em Brasileia ficou insustentável, diz secretário do governo do Acre

Michel Filho / O Globo
Haitianos em Brasileia, no Acre:
 município é a porta de entrada para o Brasil 

SÃO PAULO - Cerca de 700 imigrantes haitianos devem desembarcar nos próximos dias em São Paulo devido ao fechamento do abrigo mantido pelo governo do Acre no município de Brasileia, na fronteira com Bolívia e Peru. Segundo o secretário de Justiça e Direitos Humanos do Acre, Nilson Mourão, até sábado 180 pessoas embarcarão diariamente para a capital paulista, numa viagem de ônibus que dura três dias.

Segundo ele, o número de haitianos e senegaleses em Brasileia chega hoje a 750 e, por dia, 50 novos imigrantes dos dois países (Haiti e Senegal) entram no Brasil por Iñapari, no Peru, a rota inicial dos imigrantes do Haiti desde 2010, após o terremoto que devastou o país.

- A cidade de Brasileia é muito pequena. O número de haitianos e senegaleses cresceu muito e a situação está insustentável. Não houve problema algum com a população até agora e queremos retirá-los de lá antes que ocorram problemas. Não temos casos de hostilidade, mas a população está incomodada - afirma Mourão.

Brasileia tem cerca de 20 mil habitantes, metade dos quais moram na área urbana.

De acordo com Mourão, o governo do Acre vai receber parte dos imigrantes num abrigo provisório no centro de exposições de Rio Branco, capital do estado, com capacidade para até 300 pessoas. O abrigo funcionará até julho, quando o centro de exposições será ocupado por eventos.

Pelo menos 20 mil haitianos e senegaleses já entraram no Brasil pela fronteira do Acre. Mourão afirmou que a ideia é que os haitianos fiquem no máximo cinco dias no estado, prazo para obter visto e conseguir carteira de trabalho e de identidade. Depois, devem seguir para outros estados em busca de emprego.

Segundo ele, os senegaleses ainda têm de aguardar mais tempo para obter o visto - até dois meses - e é principalmente para eles que foi criado o abrigo provisório na capital acreana.

- Os haitianos sabem para onde querem ir e já têm contato no Brasil - explica Mourão, afirmando que muitos seguirão de São Paulo para Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Mourão afirmou que não houve qualquer mudança de posição do país em relação à entrada de imigrantes pela fronteira do Acre.

- A porta de entrara segue aberta - informou.

Há, segundo ele, mudança no perfil dos imigrantes que chegam atualmente pelo estado. Se no início da imigração de haitianos vieram muitos profissionais liberais, agora a maioria é formada por pessoas dispostas a trabalhar em serviços gerais e construção civil, por não terem instrução para pleitear outros postos e trabalho. Este é também o perfil dos senegaleses que procuram emprego no Brasil.

O secretário informou que mais de mil imigrantes haitianos deixaram o estado desde o último dia 31 de março, quando começou a estratégia de esvaziamento de Brasileia.

Mourão afirmou que o abrigo provisório de Rio Branco manterá os mesmos serviços de Brasileia, com refeições diárias. No município, embora a capacidade fosse para 300 pessoas, não raramente o número de abrigados chega a 2 mil.

Os imigrantes que continuam a entrar pela fronteira do Peru com Assis Brasil (AC) não devem parar mais em Brasileia e terão de arcar com o custo da viagem até Rio Branco.

Na chegada a São Paulo, segundo Mourão, os haitianos receberão orientação de um padre e um grupo de assistentes sociais voluntárias. O apoio,porém, é apenas para que eles saibam como se locomover para seus destinos desejados. Não há, por enquanto, abrigo gratuito à disposição deles.

Mourão afirmou que o governo federal pretende criar um abrigo para imigrantes no município de Guarulhos, mas não soube informar detalhes. O governo federal ainda não se manifestou.