Editorial
O Globo
Brasil concentra cada vez mais suas exportações em menos destinos, em produtos de menor valor agregado e em poucas empresas — 300 respondem por 90% das vendas
O Brasil detém 3% do PIB mundial, mas se contenta em permanecer com somente 1,3% do fluxo de comércio internacional. É muito, muito pouco para um país da sua dimensão social e econômica. Como já demonstrou a Fundação Getúlio Vargas, 75% do comércio mundial hoje acontecem no âmbito de acordos desenhados para proporcionar múltiplos benefícios aos países signatários.
Na América do Sul construiu-se o Mercosul, arruinado pela obtusidade política de governos regionais. Agora, há sinais de aproximação com a União Europeia para um acordo de comércio, graças ao empenho do Uruguai e do Paraguai, os sócios menores do Mercosul, ao qual o Brasil teve a lucidez de aderir. As perspectivas são favoráveis a um acordo com a UE, mas talvez seja prudente aguardar o desfecho, pois trata-se de item pendente há uma década na pauta diplomática brasileira.
Também dependente de iniciativa governamental é a situação do comércio Brasil-Estados Unidos. O fluxo comercial entre os dois países (mais de US$ 60 bilhões em 2013) diz muito sobre sua importância para o Brasil e, mais ainda, sobre as possibilidades de crescimento. Sobretudo em uma etapa na qual, depois de um período de valorização das commodities, registra-se substancial declínio das exportações brasileiras de manufaturados, mercadorias industrializadas de maior valor.
Recente pesquisa da Câmara Americana de Comércio, apresentada em audiência no Senado, revela que a pauta de exportação do Brasil, em geral, se concentra cada vez mais em menos destinos e em produtos de menor valor agregado. Com agravantes: o comércio brasileiro está cada vez mais concentrado em poucas empresas — apenas 40 delas são responsáveis por mais de 50% das vendas externas do país; 300 abarcam 90% de tudo que é exportado.
É um grave retrocesso, realçado pela letargia brasileira na relação com os Estados Unidos, mercado para o qual 72% dos produtos nacionais vendidos são manufaturados ou semimanufaturados. Os dados da pesquisa mostram mais: 6,3 mil empresas do Brasil estão engajadas na atividade de exportação aos EUA, o ambiente comercial mais competitivo do planeta. A atuação no mercado americano exige a adoção de padrões de qualidade e de acúmulo de poder de competição bem acima da média da indústria cuja operação está restrita ao mercado interno.
Há, sim, um fator estrutural de renovação do parque produtivo, quando integrado ao mercado global — e nele, especialmente, os Estados Unidos. É dessa mudança de patamar que a economia brasileira precisa.
Chegou-se ao quarto ano do governo Dilma Rousseff e, depois de uma sucessão de erros, a única certeza sobre o futuro da relação com os EUA é a incerteza.