domingo, junho 29, 2014

Argentina: cenário é de moratória iminente, dizem especialistas

 Nice De Paula e Janaína Figueiredo
O Globo

Para economista que negociou dívida brasileira, país ‘é vítima do próprio veneno’

Alejandro Pagni / AFP
Ao lado de propaganda esportiva 
que faz menção ao Mundial, pichação contra os ‘fundos abutres’ 

RIO e BUENOS AIRES - O cenário hoje para a Argentina é de moratória, afirmam especialistas. Mesmo que o calote técnico só seja decretado 30 dias após o vencimento, dificilmente o país conseguiria obter financiamento em um prazo tão curto. O ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) Alexandre Schwartsman pondera que sempre existe a possibilidade de a Argentina tentar renegociar as dívidas não honradas, trocando os papéis dos credores que aceitaram renegociar por outros, com vencimento futuro.

— O problema é que eles não têm muito tempo para fazer isso, e nenhum banco estaria disposto a ajudar nessa operação. A situação do país está para lá de delicada — afirma.

Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-presidente do BC, diz que a Argentina “está sendo vítima de seu próprio veneno”.

— A Argentina está num córner muito grave, reflexo da estratégia de virar as costas para o mercado financeiro internacional e fazer uma moratória unilateral. São decisões que podem gerar dividendos políticos a curto prazo, mas depois geram um custo social brutal para o país. A Argentina virou as costas para o Fundo Monetário Internacional (FMI), rompeu com o Clube de Paris, ignorou credores e virou um pária do mercado financeiro internacional: perdeu acesso a recursos privados, não recebe investimentos, não tem reservas para honrar pagamentos da dívida externa, e isso vai levar o país a uma recessão profunda — diz Langoni, que foi responsável pela renegociação da dívida brasileira, na época da moratória de 1982.

Segundo ele, a Argentina está em uma situação muito diferente da do Brasil, que mesmo quando precisou renegociar as dívidas sempre manteve o direito de as multinacionais fazerem suas remessas de lucros e fez acordos negociados, com o aval do FMI. Além disso, explica Langoni, a decisão da Justiça americana abre caminho para que outros credores do país reivindiquem tratamento semelhante, o que pode gerar uma fatura extra de cerca de US$ 15 bilhões.

Segundo o economista e ex-secretário da Indústria da Argentina Dante Sica, a Casa Rosada está criando uma situação dramática sem necessidade”.

— Estamos falando de um pagamento que representa 2% de nosso PIB. Poderíamos perfeitamente chegar a um acordo como fizemos com a Repsol e o Clube de Paris, pagar em bônus — argumentou Sica, diretor da consultoria Abeceb.

Para ele, “toda esta confusão afugentará investimentos e terá consequências negativas para o país”:

— O governo sabe que terá de pagar e está buscando, simplesmente, dissimular esse pagamento. É como quando você está perdendo um jogo de futebol e no último minuto vai e dá um chute no juiz.

INFLUÊNCIA NO COMÉRCIO BILATERAL
Mas tanto Langoni como Schwartsman ressaltam que uma moratória argentina não terá grande impacto sobre o Brasil, porque o país não sofre mais o efeito de contágio dos problemas dos vizinhos ou do mesmo patamar econômico, dizem.

— A maior consequência seria sobre o comércio bilateral, mas a Argentina terá que manter esse comércio, porque ele gera muitos empregos lá — afirma Langoni.

Schwartsman também diz que o maior impacto seria sobre as exportações brasileiras. Os argentinos hoje respondem por cerca de 8% das vendas externas totais do Brasil, sendo que nos produtos manufaturados essa fatia sobe a 20%.

— Há mais de dez anos não há mais efeito de contaminação, os dois países seguiram caminhos distintos — diz Schwartsman.