terça-feira, junho 10, 2014

Jogo de abertura: torcida, mesmo, caberia até no Canindé

Giancarlo Lepiani
Veja online

Foi preciso ter sorte para conseguir lugar – dos prometidos 68.000 ingressos, público comum ganhou 25.000, e poderá encarar surpresa desagradável

 (Ivan Pacheco/Veja.com) 
A inauguração oficial do Itaquerão, no jogo entre Corinthians e Figueirense, 
pelo Campeonato Brasileiro, no mês passado

Como o Itaquerão só finalizou suas arquibancadas temporárias nos últimos dias, é possível que os donos de ingressos para a abertura tenham alguma dor de cabeça na chegada ao seu lugar marcado. Os representantes da Fifa garantem, entretanto, que não há risco de ficar de fora da festa.

Quando o Brasil foi confirmado como país-sede da Copa do Mundo de 2014, há sete anos, muita gente começou a sonhar em estar na partida de abertura do torneio. O jogo de estreia da seleção, porém, será visto por um grupo relativamente pequeno de torcedores comuns – e esses poucos sortudos deverão se concentrar nas arquibancadas provisórias do Itaquerão, os setores menos confortáveis do novo estádio. 

Para completar, esse público que comprou suas próprias entradas ainda corre o risco de enfrentar alguma surpresa desagradável. Como a arena do Corinthians foi concluída há muito pouco tempo, teme-se que o mapa de assentos usado pela Fifa para vender as entradas não corresponda totalmente às cadeiras colocadas no estádio. Para minimizar o risco de confusão com os bilhetes, a Fifa tentou manter uma margem de erro na comercialização dos tíquetes. Ainda assim, a própria entidade admite que é impossível garantir que todas as entradas corresponderão a um assento exatamente no setor previsto – pelo menos dentro das condições enfrentadas no Brasil, onde muitos dos estádios foram entregues bem depois do que fora combinado.

Por causa da demora na conclusão das arenas, uma parcela relativamente pequena dos torcedores que compraram ingressos no site da Fifa recebeu um comunicado da entidade, pedindo a troca de seus bilhetes por outros localizados em setores equivalentes ou melhores. A checagem das cadeiras existentes nos estádios revelou algumas pequenas discrepâncias. Como o Itaquerão só finalizou suas arquibancadas temporárias nos últimos dias, é possível que os donos de ingressos para a abertura tenham alguma dor de cabeça na chegada ao seu lugar marcado. 

Os representantes da Fifa garantem, entretanto, que não há risco de ficar de fora da festa: a entidade trabalha desde o início com uma pequena margem de manobra para acomodar casos imprevistos. Quem estará na partida com um bilhete comum, porém, tem motivos para festejar bastante a própria sorte. O anúncio inicial de que o Itaquerão seria preparado para ter 68.000 assentos, como a Fifa exigia do palco da abertura, deixou muita gente com a ilusão de que os ingressos não seriam tão inacessíveis assim. Graças a uma série de fatores, no entanto, o público pagante em cadeiras comuns será de pouco mais de 25.000 pessoas – número equivalente ao melhor público do modestíssimo estádio do Canindé, também em São Paulo.

Segundo a Fifa, a capacidade máxima do Itaquerão não chegará nem perto dos 68.000: por causa da instalação da tribuna de imprensa, com mesas para os jornalistas, e de plataformas para câmeras de TV, haverá uma drástica redução de assentos disponíveis. Incluindo na conta os assentos que têm algum tipo de obstrução na visão do campo – como os que são total ou parcialmente bloqueados pelas plataformas ou tribunas –, chega-se a pouco mais de 61.000 lugares. 

Com cerca de 1.500 convidados VIP, quase 14.000 bilhetes de pacotes especiais de hospitalidade e mais de 12.000 ingressos para patrocinadores e detentores dos direitos de transmissão, o espaço para o torcedor comum fica ainda menor. Há também os convidados das federações e confederações ligadas à Fifa, além dos delegados do congresso da entidade, que acontece na véspera, no Hotel Transamérica. Resultado: na derradeira fase de venda de ingressos, na semana passada, pouco mais de 8.000 bilhetes para a abertura foram disponibilizados. Por causa da altíssima demanda, houve tumulto nos pontos físicos de venda e muitas queixas de quem encarou a fila virtual no site da entidade.

Mercado paralelo - Responsável por supervisionar o processo de comercialização das entradas, o diretor de Marketing da Fifa, Thierry Weil, lamentou a frustração dos torcedores que não conseguiram o seu bilhete na fase derradeira. Ele lembra, porém, que a Fifa disse desde o início que se tratava de um lote residual de ingressos – e confessa que não esperava que tanta gente iria aos pontos físicos de venda esperando conseguir um lugar em jogos tão concorridos como a final. “Como a venda on-line começava à meia-noite, não sobrariam ingressos de jogos tão importantes até a manhã. Falou-se em abrir os pontos físicos às 7 horas, mas adiamos para as 9 horas para não haver confusão”, revelou o dirigente depois de uma reunião do Comitê Organizador, na quinta, num hotel da Zona Sul de São Paulo. Weil mostrou-se impressionado com a grande procura por ingressos no Brasil e comemorou o fato de o país já ter superado com folgas os números da Copa passada. 

Apesar de admitir que a chance de alguém conseguir comprar ingressos para os principais jogos agora é remota, o diretor da Fifa sugere que os torcedores sigam consultando o site da entidade – como existe um processo de revenda dos bilhetes devolvidos por desistência, algumas entradas para jogos que constam como esgotados podem aparecer no sistema.

A partir de agora, Weil e sua equipe ficarão de olho nos movimentos do mercado paralelo de ingressos e na verificação da identidade dos compradores nos estádios. Os ingressos da Copa são pessoais e intransferíveis. Quem comprou bilhetes de cambista, com o nome de outra pessoa, corre um risco real de ser barrado na porta do estádio. A Fifa informa que, da mesma forma que em outras edições, essa checagem será aleatória e pouco frequente, por questões práticas. 

“Não dá para checar a identificação de 50.000 pessoas na entrada”, disse Weil. Ele avisa, contudo, que os torcedores que tentarem ir ao jogo com bilhetes comprados de estudantes, idosos e beneficiários do Bolsa Família – grupos que tiveram desconto na compra – correm um risco maior de perderem seu dinheiro. “Vamos checar, sim, os ingressos comprados com desconto, para garantir que quem deveria usufruir deles esteja, de fato, nos jogos da Copa. Se um ingresso de meia-entrada para idoso, por exemplo, é usado por alguém que parece ter 35 anos, fica fácil pegar. E não é para punir ninguém, e sim para garantir que quem deve ter um lugar no jogo tenha, de fato, seu assento no estádio.”